A sala de aula

Francisco Martins da Silva

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A turma A dos meninos que querem ir para medicina ainda proporciona um ambiente que lembra a sala de aula. E assegura o lugar no ranking. O resto da escola é uma ruidosa e caótica feira, e o professor é um caracol, com a sua bagagem inútil de conhecimento, experiência e sentido de missão, a atravessá-la.
Francisco Martins da Silva

O seu objectivo é sobreviver a cada dia. Para isso, finge que não se passa nada. O professor sabe que, sempre que o limite do inadmissível, a cada dia mais largo, é ultrapassado e não consegue resistir à tentação de actuar, pode cair numa espiral de perda de dignidade com desfecho trágico.

Para o evitar, o professor obriga-se a não ouvir nem ver e a esperar que os cinquenta ou noventa minutos passem sem consequências de maior. No fim do dia, ao deixar para trás o portão da escola, faz tabula rasa, para conseguir voltar na manhã seguinte.

Desde sempre, a autoridade dos professores é a que a sociedade lhes dá. E hoje não lhes dá nenhuma. Hoje, como se viu na votação de 10 de Maio na Assembleia da República e nos resultados das eleições europeias e legislativas, espezinhar os professores dá votos. A sociedade aprecia que se cometam ilegalidades contra os seus professores.

Como última justificação para o estado de indisciplina e violência a que se chegou nas nossas escolas, tem-se lido e ouvido que os professores estão velhotes, coitados, e já não conseguem dar conta do recado. Sobretudo, não conseguem estar à altura dos alunos de hoje, tão espertos, tão digitais e informáticos. É que no telemóvel está tudo! Se queremos saber alguma coisa, é só ir ao telemóvel que temos logo a resposta. Ora, quem é que o professor se julga para mandar o aluno guardar ou, suprema estultícia, desligar o telemóvel?

Outro argumento, este mais antigo e que até alguns professores masoquistas (também os há, claro) defendem, é a falta de “estratégias” para motivar os alunos — apanágio, mais uma vez, dos professores idosos e obsoletos. Refere-se quase sempre aquela cena impactante do filme Clube dos Poetas Mortos, em que o genial professor manda os alunos subirem para cima das mesas a fim de comprovarem a importância do ponto de vista. Não cabe no filme mostrar que outras estratégias se seguiriam. Com certeza que as aulas não passariam a ser dadas com os alunos de pé em cima das mesas. Um truque uma vez visto… Teria de haver sempre novo truque a cada aula. Não é sistema, claro, todos o sabemos.

A responsabilidade de motivar os alunos não deve caber ao professor. A frequência do sistema de ensino é, antes de mais, do interesse do aluno. O aluno tem de vir de casa convicto das vantagens da escolaridade. É claro que há instrumentos — didácticos, retóricos — que qualquer professor conhece e utiliza para captar a atenção, mas não é o professor que tem de motivar. Este modo de ver a docência tem levado à infantilização do ensino. Já atinge as Universidades e não é benéfico para ninguém. Os professores perdem o tempo de aula num misto quixotesco de mãe, psicólogo e comediante, e não é esse o seu papel. A montante, o aluno e a família têm de decidir o que querem, pressupondo que o saber exige esforço e vontade. Se o aluno não se mobiliza, não há ilusionismo que valha.

Talvez grande parte da causa deste flagelo da indisciplina, que é o motor da violência, e do desinteresse pela escola esteja no persistente fascínio bacoco, parolo, pelo telemóvel. Para os nossos jovens, o telemóvel parece ser o bem supremo. Privá-los do telemóvel é tirar-lhes tudo. Isto há-de passar, como tudo passa, e recordaremos com profundo embaraço esta fase ridícula e perigosa de facilitismo, inversão de valores e perda de dignidade.

Entretanto, é urgente que se tomem medidas. O governo tem de dar um sinal inequívoco à sociedade, parando com a táctica eleitoralista, infame, suicidária, de desvalorização dos professores. É do interesse colectivo que a classe docente seja protegida juridicamente da indisciplina e das agressões, que as suas condições de trabalho sejam dignificadas e se recupere a sala de aula.

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