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Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos estará disponível ao visitante em finais de 2019

Mariana Martinho

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O Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos (CILO) proposto pelo Conselho da Cidade ao Orçamento Participativo de Portugal (OPP) estará disponível ao visitante em finais de 2019. O projeto, no valor de 97.831,40 euros e que foi um dos vencedores da edição de 2017 do OPP, terá um conjunto de estruturas, equipamentos e outras valências informativas e interativas disponíveis ao redor da lagoa, que permitirão ao visitante ter um maior contacto com a paisagem, comunidades locais e suas atividades tradicionais, por meio de ações educativas, experimentação e turismo de natureza ordenado. Este instrumento poderá assim afirmar-se como um futuro polo dinamizador da região, contribuindo para a sua divulgação e desenvolvimento sustentável.
A sessão foi dirigida pela vereadora Maria João Domingos, pela coordenadora da LPN e pela presidente do Conselho da Cidade

O projeto, que prevê a criação do centro interpretativo, tendo a Lagoa de Óbidos como tema central, vai permitir abordar, divulgar e estudar diversas áreas do conhecimento como a ecologia, biologia, história, sociologia e etnologia. Este equipamento dinâmico onde, para além de uma estrutura central, poderão coexistir polos temáticos disseminados pela área e indo ao encontro do visitante, foi apresentado na passada quinta-feira à noite, no auditório da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, numa primeira “ação concreta” de auscultação pública das expectativas da comunidade e entidades locais.

Para esta intervenção, que teve início em maio deste ano e que deverá ser executada até outubro de 2019, a Liga para a Proteção da Natureza (LPN), entidade responsável pela execução do projeto, conta para já com a comparticipação financeira da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia e da Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica (entidade que avaliou as candidaturas) e como parceiros o Conselho da Cidade – Associação para a Cidadania e as câmaras das Caldas da Rainha e de Óbidos, sendo que a autarquia caldense será responsável pelo espaço físico e a obidense pela comunicação. Nesse sentido, a LPN pretende repetir a ação em setembro, mas desta vez, no município de Óbidos.

Componente científica, turística, ambiental e histórico-cultural

Com vasta experiência na área da implementação de vários projetos, que demonstram a possibilidade de conciliar, de forma sustentável, a conservação da biodiversidade com as atividades económicas de um local, a LPN, organização não-governamental de ambiente, sem fins lucrativos, apresentou o CILO como um “instrumento de intervenção multidisciplinar, com uma vertente fortemente educativa, centrado na recolha e partilha de conhecimento, onde questões culturais, históricas e ambientais se cruzam com atividades humanas de agricultura, pesca e turismo”.

Apesar do conceito inovador, dinâmico e de proximidade, o projeto possui um “orçamento não muito elevado”, comparativamente a outros centros que a entidade foi parceira, como o caso do EVOA – Espaço de Visitação e Observação de Aves, localizado em Vila Franca de Xira, bem como o Centro de Interpretação dos Charcos Temporários Mediterrânico, situado em Odemira. Este último, segundo a coordenadora da LPN, Ana Rita Martins, terá um conceito “não muito diferente do que vamos aqui implantar”, apesar do “orçamento ser modesto para tanta coisa”.

O planeamento inclui despesas com o equipamento (28.012,00 €), bens e serviços (25.917,60€), consumíveis (2.406,26€), deslocações (9.320,00€) e recursos humanos (32.175,54€), mas não contempla a criação de uma infraestrutura, que será na Foz do Arelho. Essa será assegurada pela autarquia das Caldas da Rainha, que “tem como compromisso encontrar um espaço e prepará-lo para acolher o CILO”, fazendo obras no espaço com financiamento próprio.

Apesar disso, a bióloga afirmou que o CILO será “uma máquina de pessoas a funcionar para divulgar a Lagoa de Óbidos”, através de um conjunto de equipamentos, ferramentas informativas e parcerias de sustentabilidade.

No caso do suporte físico, o centro terá exposições temporárias e permanentes no edifício, bem como vinte painéis identificativos, que compõem os vinte quilómetros de perímetro da Lagoa, para que “as pessoas não fiquem apenas no edifício, mas visitem os vários pontos da Lagoa”, acompanhados de um áudio guia. Estes pontos também serão palco de divulgação desenvolvida através dos grupos de teatro da região. Na vertente digital, o CILO prevê a criação de um sítio na internet e dois quiosques digitais, sendo que um será instalado no Centro e outro “ainda está a ser estudada a localização em Óbidos”.

O CILO será palco de várias atividades gratuitas dirigidas a diferentes públicos, como ações de informação para as comunidades locais (debates/visitas guiadas, oficinas culturais), ações de (in)formação para estudantes universitários e profissionais, cuja atividade depende da lagoa, palestras, debates e workshops formativos, ações de recolha de informação científica e incentivo à ciência cidadã, ações lúdico-pedagógicas para escolas e ainda ações de divulgação para turistas.

Por fim, prevê um programa de incentivo à criação de oferta turística ordenada (património natural e histórico-cultural da Lagoa de Óbidos) com ligação ao CILO, através da criação de pacotes turísticos de experimentação, que serão testados durante o período de execução por vinte pessoas.

Relativamente à produção do logótipo, a coordenadora da LPN adiantou que será lançado o desafio aos alunos da Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha.

Além disso, o CILO vai estar aberto a todas entidades e cidadãos que “dele também possam tirar partido”.

Com estes objetivos traçados, a LPN espera “que seja criado um modelo ou estrutura, que pareça exequível e sustentável para todos”, de forma a garantir a potencialização da dinâmica local, o trabalho em rede, a melhoria da qualidade de vida das populações locais e o desenvolvimento económico e social sustentável do território”.

Após terminada a execução do projeto, a organização não-governamental definirá uma “estratégia de continuidade”, de modo, a que “o projeto não pare por aí” e ainda autarquia caldense assumiu o “compromisso de fazer tudo o que está ao seu alcance para assegurar a continuidade do espaço”.

Centro de Interpretação “não pode ignorar o problema de fundo” da Lagoa

A primeira ação de auscultação pública das expectativas da comunidade e entidades locais, que contou com a presença de cerca de 70 pessoas, gerou controvérsias e dúvidas entre os participantes.

Presente esteve António Eloy, que criticou os “OPP, que de facto não são nada participativos, pois a partir do momento em que são aprovados deixa de haver qualquer participação daqueles que são responsáveis pela ideia”, sendo “afastados de qualquer intervenção na organização e desenvolvimento dos projetos”. Igualmente criticou o facto da associação Pato “não ser convidada a apresentar uma candidatura, visto que tem técnicas e trabalho realizado no terreno”, bem como “atribuição de 30% do orçamento para funcionários da LPN, que não tem nenhuma ligação à nossa região”.

O ambientalista também comentou a falta de “questões mais dinâmicas e funcionais no CILO, sendo que a construção devia de ser uma vertente prioritária, e certamente será menor do que aquilo que foi orçamentado para os funcionários”.

Em resposta, a presidente do Conselho da Cidade, Ana Costa Leal, afirmou que “nós pensamos que estamos a ir num bom caminho”, pois “demos um passo pequeno” no que diz respeito à Lagoa de Óbidos. Contudo, relembrou que “o grande passo não está nas nossas mãos”.

Igualmente esclareceu que “o Conselho da Cidade não está à parte, pois somos parceiros da LPN e estamos bastante envolvidos no projeto”.

Já José Carlos Faria, da CDU, destacou que “ao continuar assim, o Centro Interpretativo arrisca-se a ser de uma lagoa completamente poluída e assoreada”, por isso, “os projetos interessantes do CILO são avidamente de saudar mas não podem ignorar o problema de fundo”.

Na opinião de Amália Monteiro, o projeto devia manter, em primeiro lugar, a “Lagoa viva para depois explorá-la”. Também Vasco Trancoso sustentou que o Centro pode ajudar na resolução de alguns problemas essenciais da Lagoa, através de elaboração de estudos.

Relativamente às críticas, a coordenadora do LPN esclareceu que “o CILO não é um centro de investigação, mas é a base para que se possam construir outras mais-valias para dar uma resposta mais consistente” aos problemas. Aliás, referiu que a LPN, enquanto organização, “não é uma autoridade” com competência para resolver os problemas associados à Lagoa e às intervenções.

No entanto, o projeto pode promover sessões de debate, com oradores com conhecimento na área, de modo a “orientar para uma intervenção mais direcionada a quem de respeito”.

Relativamente aos “30%” dedicados aos recursos humanos, Ana Rita Martins, esclareceu que o orçamento sofreu “um corte” e como tal, “não é um montante assim tão elevado, visto que vamos apostar em pessoas para dinamizar atividades e execução do projeto”.

Para a vereadora Maria João Domingos, “este projeto vai ser uma importante alavancagem do sistema ecológico da Lagoa”, e por isso, “vamos fazer com que o CILO cumpra as expetativas de todos”.

Em relação ao espaço, a vereadora explicou que o “local pretendido não pertence à autarquia, mas sim a outra entidade pública, por isso estamos aguardar uma resposta”.

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