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Lançamento do livro de Carlos Querido “O Processo de Camilo”

Marlene Sousa

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No âmbito do evento cultural “Abysmo nos arredores de Imaginário”, organizado pelo Casal da Eira Branca em parceria com a editora Abysmo, o juiz caldense Carlos Querido lançou, no passado sábado, nas Caldas da Rainha, o seu livro “O Processo de Camilo”.
Jacinto Gameiro, Carlo Querido e João Paulo Cotrim

O lançamento do livro, que era para ter decorrido na Igreja de São Sebastião, teve que ser deslocado para o exterior do Espaço Turismo, localizado ao cimo da Praça da Fruta, devido à grande afluência de público que quis assistir à sessão de Carlos Querido, que também é autor de várias obras como Salir d’ Outrora (2007) Praça da Fruta (2009), A Redenção da Águas – As peregrinações de D. João V à Vila das Caldas (2013) e Príncipe Perfeito – Rei Pelicano, Coruja e Falcão” (2015).

“Um encontro de amigos” foi como o editor da Abysmo João Paulo Cotrim, classificou este evento, referindo que o livro lançado “desta vez não é ficção nem contos”, mas sim “uma obra mais relacionada com a minha profissão de juiz, que se trata de um pequeno ensaio escrito a partir do processo existente no Tribunal da Relação do Porto, que narra o drama de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, presos, acusados e julgados pelo crime de adultério”.

Jacinto Gameiro, responsável pelo alojamento rural “Casal da Eira Branca”, deixou rasgados elogios a Carlos Querido, cuja amizade “prolonga há anos”. Enalteceu o livro lançado, recordando que foi nos meados do séc. XIX que Camilo Castelo Branco andou a contas com a justiça. Passou um ano e 16 dias em prisão preventiva. “Na altura foi um processo de grande escândalo no Porto”, afirmou, acrescentando que uma das caraterísticas destacadas na obra de Carlos Querido é a “pesquisa intensa e estudo que fez sobre Camilo e o processo e a densidade que depois confere às personagens”.

Carlos Querido foi convidado pelo ex-presidente do Tribunal da Relação do Porto, juiz desembargador Henrique Araújo, a quem está dedicado “este livro”, para fazer uma apresentação inserida no Ciclo de Conferências – A Relação com a Cidade, sobre “O Processo de Camilo”. Daí nasceu o livro, que tem 49 notas de rodapé, o que significa que “há muita investigação”. “Fui ao encontro de Camilo e fico absolutamente deslumbrado”, sublinhou o autor, que citou Agustina Bessa Luís, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoaes, entre outros escritores portugueses que escreveram sobre Camilo. Revelou que se trata de um texto “denso que vão ler numa hora” e do qual fez uma síntese.

Antes de continuar a falar da sua obra, Carlos Querido agradeceu a presença dos “amigos”, nomeadamente os da sua terra, Trabalhias (Salir de Matos). Orgulhoso da sua aldeia, disse que a vida é “uma viagem onde não nos podemos esquecer quem somos”, e que há viagens também que o levam “à minha aldeia, como os seres, as memórias, o cheiro da hortelã e das vindimas em setembro”.

O juiz recordou as palavras de Agustina Bessa-Luís, que define Camilo Castelo Branco como “um Voltaire à moda do Porto, com mais tripas do que carne do lombo”. Teixeira de Pascoaes estabelece esta ligação profunda e indissociável: “O Porto é a cidade de Camilo. Está nas suas novelas como nos Lusíadas o mar”.

Para a investigação sobre Camilo, o juiz encontrou “três volumes de Aquilino Ribeiro que era obcecado com Camilo”. “Gostava tanto dele, admirava-o tanto, como desprezava o homem, e isso chocava-me”, disse Carlos Querido, acrescentando que os biógrafos de Camilo não apreciam Ana Plácido. Aquilino Ribeiro chama-lhe com algum desdém “Madame Bovary tripeira” e chega mesmo a defini-la como “aquela boga gorda e tonta”. “É muito minucioso e diz que o texto de Ana Plácido “Herança de Lágrimas” tem partes com brilho que são do Camilo”, adiantou o autor. Sobre ela escreve Agustina palavras cáusticas: “É turva e não sei se banal essa figura de mulher junto de Camilo”.

O juiz referiu que leu a correspondência de Camilo e ele está sempre a lamentar-se que “nunca tem dinheiro”. “Há uma altura que até temos quase pena dele, porque este homem que era genial está sempre a pedir dinheiro aos editores”.

Destacou também a qualidade literária de Camilo. “A limpidez do verbo no Camilo é deslumbrante, e é mais maravilhoso ainda pensando que aquele homem vivia desgraçado sem dinheiro, sempre preocupado mas com presença de espírito para escrever assim”. “Ele na prisão escreve o Amor de Perdição em 15 dias”.

Carlos Querido recordou que este crime de adultério, “veio dividir o Porto em dois”. “Temos as famílias sérias e bem-comportadas que dizem que este homem tem que ser afastado e depois temos os amigos dele, nomeadamente os escritores dos jornais, que dizem que é um crime de amor e não deve ser punido”.

A segunda parte do livro é sobre o julgamento. Segundo o autor, Camilo tem como advogado Marcelino da Mota, que é um “homem brilhante”. Existe um júri, e o juiz, que é o pai de Eça de Queirós, “tenta a todo o custo fugir daquele processo, mas obrigam-no a ficar”. “O que se discute depois aqui perante o júri é o crime do amor”, adiantou Carlos Querido, referindo que o Rei D. Pedro V, “vai visitá-lo duas vezes à prisão e partir daí as pessoas do Porto ficam com alguma compaixão por causa do seu rei e ele começa a ter um estatuto especial na prisão”.

Segundo o autor, o júri absolve os amantes, não por considerar livre e legitimo o amor, mas por entender contra todas as evidências que não se provou. Mais definitiva nos seus julgamentos, a história considerará provado que Camilo amou Ana Plácido, até ao dia 1 de junho de 1890, quando, com os olhos gastos de tanto viver e escrever, cego mas lúcido, pôs termo à sua vida num gesto há muito anunciado.

Carlos Querido finalizou incentivando a leitura da obra para ficar a conhecer melhor não só o processo jurídico movido contra Camilo, como também descobrir a sua “genialidade”.

Exposições, uma feira do livro, lançamentos e conversas com autores preencheram o encontro literário Abysmo nos Arredores do Imaginário, que começou na sexta-feira nas Caldas da Rainha.

Durante três dias, envolvendo vários espaços da cidade, houve uma feira do livro na capela São Sebastião, uma exposição de ilustração de Lorde Mantraste no Museu José Malhoa e o lançamento de um livro de Isabel Castanheira na Gráfica Caldense.

O programa incluiu ainda, um encontro com Celeste Afonso (Óbidos Vila Literária), que fez uma apresentação do projeto Latitudes – o encontro de literatura e viajantes em Óbidos, que vai decorrer de 26 a 29 de abril.

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