Todas estas sugestões culinárias compõem o livro “Ao sabor da Bíblia” do chef e também doutor, que esteve na passada quinta-feira na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste (EHTO) a apresentar a obra aos alunos. Para o formador, esta obra “não é só um livro de receitas, mas um bocadinho mais do que isso”, fazendo um duplo convite ao leitor “pelos sentidos e pela memória até à nossa matriz e aos fundamentos da nossa cultura”.
Além de docente na Escola de Hotelaria de Coimbra, Luís Lavrador é também doutor, pois o cozinheiro da seleção portuguesa de futebol fez o primeiro doutoramento em Gastronomia, em Coimbra. Aliás admitiu que “não fiz um trajeto académico normal, estava numa Escola de Hotelaria, abracei uma profissão e depois é que fiz o meu trajeto académico”.
A certa altura da vida, o autor sentiu a necessidade de aprofundar conhecimento, através da formação.
“Faltava-me revestir a minha parte prática com qualquer coisa do plano teórico. Percebi que era importante saber pelo menos onde é que os alimentos começaram a ser consumidos, e o que tinham representado, e para quem”, explicou o chef, adiantando que foi assim que pensou no curso de Sociologia. Matriculou-se na Universidade de Coimbra, acabando por mudar-se para outro curso ligado à área da gastronomia. Aí iniciou os estudos ligados à área, acabando por entrar no mestrado sobre “fontes, cultura e sociedade”, que depois resultaria na dissertação do mestrado, no doutoramento e mais tarde no livro, que teve como fonte principal a Bíblia.
Apesar de ser católico, o chef frisou que “nunca tinha tido a necessidade de a ler “, tendo sido aconselhado pela professora Maria Helena Coelho, a “fazer uma investigação sobre os alimentos e a gastronomia da Bíblia”.
Para fazer este trabalho científico, o professor da Escola de Hotelaria de Coimbra explicou que leu o livro sagrado “mais de cem vezes algumas partes” e “todos os dias elas transmitem uma mensagem nova”.
Além disso, destacou que fez um levantamento de tudo o que era matéria-prima e do que representavam os alimentos.
Depois de publicar a dissertação, o autor confessou que foi incentivado a “ir mais além, faltando levar os alimentos à mesa”, em contexto de refeição coletiva.
O livro resulta de um “trabalho de investigação que durou 10 anos a fazer” e que apresenta-se ao leitor como um convite pela “história da comensalidade desde os primeiros tempos até ao início do cristianismo, e, de seguida, como uma convocação à experiência gastronómica da confeção e degustação de menus onde imperam alimentos, temperos e sabores que marcam o itinerário da história judaica e cristã”.
Este livro pretende ser “um convite a uma viagem pelos sentidos e pela memória até à nossa matriz e aos fundamentos da nossa cultura”.
Para o autor, a “Bíblia é um livro que condensa toda a cultura das antigas civilizações que antecederam o texto bíblico, mas também pelos Impérios grego e romano”, e “nós somos herdeiros dessa cultura”, e como tal “recorre à linguagem alimentar para passar a sua mensagem”. Destacou também que é um livro “fantástico, de cozinha e que vale a pena abrir e ler, com olhar comum”, sublinhando que “pode-se ler a bíblia através deste livro”.
Luís Lavrador recordou algumas passagens: “O próprio Cristo sentou-se à mesa com as pessoas, alimentou-as, e depois de ter ressuscitado cozinhou para os apóstolos”.
Esta obra, que tem o “propósito de atualizar”, trazendo aos dias de hoje a gastronomia antiga e ligada ao texto bíblico.
“Luís é um bom chef, um bom professor e um bom investigador”
A apresentação da obra coube à professora e orientadora do seu mestrado e doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Paula Barata Dias, que recordou que o chef numa das suas aulas referiu que a “Bíblia estava repleta de episódios e menções do universo alimentar”.
Para a docente, “o autor faz bem aquilo que sempre fez, que foi ensinar as artes da cozinha e cozinhar, mas nem por isso descurou a parte do fundamento teórico e por isso, as duas atividades complementaram-se”. Aliás, destacou que “Luís é um bom chef, um bom professor e um bom investigador”.
O livro procura provar que na Bíblia “as ocasiões de comensalidade constituem densos momentos de comunicação e que a evocação quase obsessiva de alimentos nos textos bíblicos cumprem uma função”, e quem saborear essas receitas, “não vai ficar indiferente a uma familiaridade face a tradição gastronómica do nosso país”.
Zita Seabra, responsável pela editora Alêtheia Editores, que já tinha editado um livro anterior do chef Luís Lavrador sobre a alimentação dos desportistas, comentou que “ando há vinte anos atrás deste livro que junta receitas com alimentos referidos na Bíblia, virados para o grande público”, adiantando que o livro “tem sido um sucesso”.
A edição do primeiro livro reverte a favor de uma causa social, o “Fundo Social” que apoia aos estudantes que não têm capacidade financeira de prosseguir os estudos.
Almoço “Ao sabor da Bíblia”
Após apresentação do livro, seguiu-se o mais um almoço do projeto Raízes, no restaurante pedagógico da EHTO. Desta feita, os alunos de Técnicas de Cozinha e Pastelaria e de Serviço de Restauração e Bebidas apresentaram um almoço “ao Sabor da Bíblia”, com base na receita enviada pelo chef Luís Lavrador, que fez questão de deliciar os presentes com “uma viagem dos primórdios até ao cristianismo”.
“Fiz questão de fazer o menu inspirado em episódios da Bíblia”, referiu o chef, que à medida que ia sendo servido o menu explicou o significado de cada prato.
Do almoço fez parte uma entrada composta por pão, azeitonas, azeite, empadinhas de galo, peixinhos fritos e espetadinha de legumes, fazendo sempre referência aos versículos da Bíblia.
Seguiu-se uma sopa de legumes à moda de Eliseu, e depois um cordeiro assado com ervas amargas e pão ázimo. “Esta sopa reverte-nos para um quadro bíblico, em que tem um elemento associado a farinha. Tendo esta uma função importante na cozinha, de dar sabor, sobretudo representava a presença de Deus, retirando o mal e purificando as coisas”, contou. Relativamente ao prato de carne, cumpre a “tradição da Páscoa judaica e que chega até hoje acompanhado do pão sem fermento e relembra a passagem do povo de Israel para a terra prometida”.
Para sobremesa, os alunos serviram uma maçã assada, acompanhada de uma torta de passas, taça de requeijão e mel.
“A maçã é um símbolo de amor e paixão, que neste prato é composto por uma torta de passas e uma taça de requeijão e mel, que remete para o livro de Isaías e a vinda do messias, que trazia a terra prometida”, explicou.
A ementa foi acompanhada de um vinho tinto da Quinta do Gradil, sumo de melão e pepino.









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