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Irão pr’á guerra?

Francisco Martins da Silva

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O Irão é provavelmente o país onde mais se tem gritado “morte à América” e mais se simpatiza com o american way of life.

No Ocidente, considera-se Ali Khamenei, o Líder Supremo do Irão (o actual ayatollah), um religioso radical apostado em fazer retroceder e isolar o país do progresso externo. Mas o Irão é o país das contradições: as iranianas usam de facto o hijab, mas de maneira a deixar ver o cabelo, assim como se usam palavras-chave para pedir carne de porco ou vinho nos melhores restaurantes, uma corrupção escandalosa convive com o extremismo religioso e as manifestações e os protestos populares desafiam diariamente a Guarda Revolucionária. O próprio khamenei é complexo. Ao que parece, o seu anti-imperialismo não lhe vem da religião, mas da oposição secular ao Xá Reza Pahlavi e, sobretudo, do papel traiçoeiro que os EUA e a CIA tiveram no golpe de 1953 contra o então primeiro-ministro Mohammed Mosaddeq, que tinha enfrentado os interesses britânicos mas confiava nos americanos.

Por outro lado, a Arábia Saudita considera-se o centro global do Islão. Pelo facto de a cidade de Meca, o local sagrado mais importante para os muçulmanos, ficar em território saudita, e por causa da ideologia extremista wahabita dos sunitas, a Arábia Saudita criou um sistema político e judicial que reprime todos os que não são sunitas, bem como as mulheres e milhões de trabalhadores migrantes. Externamente, a fim de deixar clara a sua hegemonia regional, a Arábia Saudita tem invadido os territórios dos países vizinhos, assassinando milhares de civis. O gigante Irão está sempre atento e procura, por sua vez, prejudicar os avanços sauditas apoiando militarmente esses países.

O partido libanês xiita, Hezbollah (Partido de Deus), considerado legítimo pelo mundo islâmico árabe e sendo uma força importante da política libanesa (responsável por serviços sociais imprescindíveis), é considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos, Israel e União Europeia. Pelo seu lado, o reino saudita considera o Hezbollah o braço iraniano no Líbano. E do Líbano têm partido ultimamente alguns mísseis balísticos, com gatilho iraniano, que vão rebentar em território saudita. Ou seja, Irão e Arábia Saudita, têm-se guerreado por procuração através de países “secundários” como o Iémen, a Síria, o Iraque e, mais recentemente, o Líbano. O reino saudita ataca-os e o Irão apoia-os militarmente. Mas este conflito difuso, mantido até agora só à custa de “vítimas colaterais”, pode, a qualquer momento, transformar-se numa guerra directa.

Os Estados Unidos, que actualmente apenas têm como aliados no Médio Oriente Israel e a Arábia Saudita, e depois de uma momentânea aliança com o Irão em 2007 contra as milícias sunitas no Iraque, mantém as suas maiores companhias petrolíferas a extrair e a distribuir o crude na região. Ora, na óptica de Trump, será vantajoso anular o acordo nuclear assinado por Obama em 2015 com o Irão, para repor e aumentar as sanções internacionais, de modo a reduzir ou anular o negócio petrolífero iraniano. Por agora tem emitido alguns tweets a criticar o Hezbollah e a apoiar e a incitar os manifestantes iranianos que se têm revoltado contra a corrupção do regime de Khamenei. Mas há quem nos EUA entenda que deve haver mesmo uma resposta militar ao Irão, em bloco com Israel e a Arábia Saudita. Se tal se verificar, teremos uma escalada imprevisível, porque o Irão tem como aliados de peso a Turquia e a Rússia, além da Síria. A Rússia tem também grandes interesses geoestratégicos na região, e foi a sua presença na guerra da Síria, desde 2015, contra o autoproclamado Estado Islâmico, que lhe permitiu reafirmar-se como potência militar mundial. Pelo seu lado, a Turquia depende do Irão para o fornecimento vital de petróleo e gás natural. E a Síria é o único verdadeiro aliado do Irão no Médio Oriente. Esta aliança baseia-se num acordo de fornecimento de petróleo iraniano à Síria a preço reduzido, em troca do impedimento de oleodutos iraquianos em território sírio, e no apoio ao Hezbollah e ao Hamas, motivado pelo ódio mútuo a Israel. A evolução deste xadrez complexo é aleatória, pois estão em confronto um Irão incongruente, uma Arábia Saudita expansionista e uns caprichosos Trump e Putin.

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