Cirurgião plástico analisa criança que ficou sem orelha arrancada por cão

Francisco Gomes

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A criança de cinco anos e meio que ficou uma orelha quando tinha 27 meses, ao ser atacada por um cão, foi analisada há dias por um cirurgião plástico do Porto que se disponibilizou para a reconstrução do membro de forma gratuita.
Dentro de três anos vai ser reconstruída a orelha esquerda de Alexandre

Alexandre, “Sasha” como lhe chama a mãe que veio da Moldávia para Portugal há dezoito anos, vive nas Caldas da Rainha. Aparentemente nada diria que não tem a orelha esquerda, arrancada por um cão quando estava aos cuidados de uma ama, que foi condenada por negligência.

Passaram-se mais de três anos desse triste episódio. Desde então, tem disfarçado a falta da orelha com o cabelo crescido, que tapa a zona mordida. É difícil mexer-lhe na cabeça, mesmo só para penteá-lo.

Os pais de Alexandre procuraram um cirurgião plástico que fizesse a reconstrução da orelha mas em Portugal não tiveram sucesso. Até que a CMTV e o Correio da Manhã divulgaram o caso e Abel Mesquita, diretor do serviço de cirurgia plástica do Centro Hospitalar do Porto, disponibilizou-se a analisar a criança e fazer as intervenções necessárias de forma gratuita.

É no Centro Materno Infantil do Norte que pode estar a solução e onde este mês se realizou a primeira consulta, durante a qual o cirurgião explicou que “é possível pegar na cartilagem da costela e reconstruir a orelha”, num processo que tem de aguardar até que a orelha do lado direito não cresça mais, o que por norma acontece aos oito ou nove anos, isto para que o molde a replicar seja do mesmo tamanho.

Até lá não se fica parado, porque há todo um trabalho preparatório a fazer, passando pelas consultas de avaliação do desenvolvimento da criança, essenciais para o sucesso da intervenção.

Abel Mesquita descreveu que “reconstruir uma orelha é sempre uma tarefa complexa, porque é um órgão que tem uma série de contornos”. “Temos de ter uma orelha do outro lado o mais definitiva possível para fazermos um molde e isso faz-se quando adquire um tamanho adulto, em que pouco ou nada mais cresce, habitualmente aos oito ou nove anos, idade a partir da qual também pode já haver suficiente cartilagem da costela, que temos de colher para criar uma matriz colocada na zona auricular e depois com um dreno aspirativo que faz vácuo levar a que a pele adira ao contorno da cartilagem”, referiu.

“Entre meio ano e um ano depois temos de separar a orelha da cabeça, que é fazer uma incisão, levantar o pavilhão auricular que reconstruímos e colocar um enxerto de pele na área cruenta, e o processo reconstrutivo está feito. É possível conseguir que fique uma orelha muito parecida com a do lado contrário e passar despercebida que é reconstruída”, adiantou.

O cirurgião admitiu que “quando há uma amputação traumática há sempre cicatrizes no local, o que faz com que a pele possa reagir pior. Mas tentamos contornar essa questão da melhor forma possível. Também exposições da cartilagem podem prejudicar o resultado final”. Contudo, “a taxa de sucesso é elevada e até agora os casos que temos reconstruído têm sido levados a bom porto”.

A utilização de próteses plásticas seria uma solução de recurso. “Tentamos sempre reconstruir com tecidos do próprio paciente, porque fica uma orelha mais resistente e com a qual a criança poderá ter uma vida completamente normal. Quando entra num ambiente quente ou frio a pele responde com a respetiva coloração, tal qual como a orelha do outro lado. Com material plástico, se houver um traumatismo pode sair a prótese, os parafusos podem infetar e para além disso não reage à temperatura”, manifestou Abel Mesquita.

Após a reconstrução do órgão a criança deverá progressivamente habituar-se à nova imagem e perder o complexo que até então sofria por apenas ter uma orelha.

O médico que está a acompanhar o menino é um reputado especialista que em média faz por ano dez reconstruções totais de orelhas em crianças.

“Tratamos destes casos há vários anos. A equipa do Centro Materno Infantil do Norte tem uma experiência acumulada e entendemos que se há um pedido de ajuda é um dever nosso disponibilizarmo-nos”, afirmou Abel Mesquita.

“Obrigado doutor”. Foi com estas palavras que Alexandre se despediu do cirurgião após a primeira consulta, mostrando que, apesar da tenra idade, percebeu objetivo da operação que se pretende fazer.

“Estou feliz e com a alma cheia com estas boas novidades. Foi encontrada a esperança em resultados positivos”, manifestou a mãe, Liliana Cepoi.

Ama condenada

O menino foi atacado por um cão que pertencia à irmã da ama da criança, na residência onde permanecia durante a semana, nas Caldas da Rainha. A 31 de outubro de 2014, o cão foi solto no quintal da casa mas não foram tomadas as devidas cautelas para impedir que se lançasse na direção do menor, arrancando-lhe a orelha.

Apesar do violento ataque de que foi alvo por parte do cão, a audição da criança não terá sido afetada, de acordo com os exames até agora realizados, que não revelaram deficiências no canal auditivo.

O processo judicial arrastou-se nos tribunais até à decisão definitiva, há poucas semanas, que condenou a ama, de 66 anos, pelo crime de ofensa grave à integridade física negligente, a uma pena de 500 euros de multa, e ao pagamento de vinte mil euros a título de danos morais, acrescidos da quantia que vier a apurar-se necessária para a aquisição de próteses e reconstituição cirúrgica, mas segundo a mãe da criança a decisão judicial ainda não foi executada, porque a condenada alega não ter dinheiro.

Está a ser apurado se tem património que possa ser penhorado, caso contrário o Estado poderá ser chamado a intervir com recurso a algum fundo de compensação.

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