Com mestrado integrado em Psicologia dos Recursos Humanos, do Trabalho e das Organizações e uma pós-graduação em Psicologia Comunitária, a caldense retornou a Portugal há um mês. “Ainda é tudo muito recente e, naturalmente, sinto as emoções à flor da pele. Houve alguém que me disse que só passado um ano do regresso se consegue sentir o impacto do que foi esta missão de longa duração na nossa vida”, sublinhou a jovem. Mas para já, “o balanço é muito positivo”.
Foram vários os fatores que levaram Mariana a disponibilizar-se para um ano de missão. A formação que frequentou durante cerca de um ano na Organização Católica “Leigos para o Desenvolvimento”, que trabalha há 31 anos em prol do desenvolvimento integral e integrado em países de expressão portuguesa e beneficia cerca de 20.000 pessoas por ano, ajudou a jovem. preparando-a tanto para a vida em missão, como a discernir se o seu “caminho passava pela realização ou não desta missão”.
Segundo Mariana, “antes de ir em missão, estive cerca de um ano em formação com os Leigos para o Desenvolvimento com o objetivo de não só me preparar para a vida em missão como de discernir se o meu caminho passava, nesse momento, pela realização ou não desta missão. São vários os motivos que nos levam a querer partir mas também vários os que nos fazem querer ficar (no meu caso, a distância longa da família e dos amigos, perder o emprego estável, sujeitar a condições de saúde mais adversas, …). Mas a formação ensina-nos também que a nossa vontade não é o que mais deve pesar. E, de alguma forma, apazigua o coração deixar a decisão nas mãos de Deus e confiar…”
A jovem sempre procurou estar envolvida em atividades de voluntariado. Participou nos “Jovens em Movimento” e na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Mais tarde, como começou a trabalhar, não pode continuar o voluntariado na SCML e começou a colaborar com a Refood, dando o seu contributo na recolha, preparação e distribuição de refeições por famílias carenciadas”. Também esteve durante um mês e meio no Gabão, em África, a trabalhar com as crianças de vários orfanatos.
Atualmente, continuando a trabalhar como psicóloga organizacional, Mariana explicou que “este ano de missão valeu muito pelos laços que criei, pelo desprendimento e pelo crescimento na fé e na entrega ao outro, pela partilha, pelo sentimento de que estava no sítio certo no momento certo com as pessoas certas, pelo conhecimento de várias novas realidades e descoberta de um mundo que realmente é tão desigual mas também tão encantador”.
Treze meses de atividades
A missão da jovem, que era responsável pela gestão, coordenação e autonomização do GAIVA – Gabinete de Apoio à Inserção na Vida Ativa no Bairro da Graça, em Benguela, teve como objetivo aumentar os níveis de emprego da população ativa. Como tal, Mariana estabelecia contacto com universidades e empresas para encaminhamento de jovens e adultos para estágios e emprego, bem como desenvolvia diversas atividades como palestras motivacionais, workshops de desenvolvimento de competências comportamentais, programas de apoio a jovens empreendedores e sessões de orientação vocacionais. Além destas funções, a jovem também acompanhou um Grupo Universitário de Voluntariado, dando suporte na formação de novos voluntários.
Com emoção e muitas saudades, Mariana salientou que “são tantas as pessoas – miúdos, mamãs, jovens, missionários, – e, com elas, as histórias que, com uma enorme gratidão, trago comigo. Finalmente, entendi o conceito de filhos do coração com um grupo de miúdos que, sem sequer fazer parte do trabalho da missão, se foi aproximando e, de repente, tornámo-nos inseparáveis”.
“Foi um ano partilhado, diariamente, com eles de quem recordo, com imensa saudade, a fidelidade, a genuinidade e ingenuidade, a sinceridade, a pureza, a empatia, a entrega incondicional, o respeito, a simplicidade, o carinho, a confiança, a maturidade de cada um, o conformismo, a humildade, a resiliência, a compreensão a calma e a paciência”, relatou.
“Também recordo as mamãs e as zungueiras que com todo o seu esforço e espírito de sacrifício, fazem longas caminhadas, com os bebés às costas e as bacias na cabeça onde transportam ora o “ganha-pão” ora o próprio “pão” para aquele dia, alimentando a família inteira e ainda mais quem se juntar. Relembro os jovens que, cheios de energia, sonhos e na esperança de viverem numa Angola melhor, transmitem a sua sede de saber e procuram aprofundar os seus conhecimentos e desenvolver iniciativas que levem à mudança de mentalidades de quem os rodeia”, descreveu.
A jovem lembrou também os missionários – padres, irmãs e leigos – que “vivem inteiramente para o desenvolvimento das suas comunidades e são autênticos testemunhos de fé e de amor e, por isso, tão inspiradores também”. Quanto ao trabalho, uma das histórias mais marcantes que guarda consigo é a “palestra motivacional”, que teve a oportunidade de levar a cabo numa penitenciária para um grupo de 300 reclusos. Esse momento foi para Mariana, “único e completamente arrebatador”.
Mas nem tudo foi um “mar de rosas”, pois uma aventura destas também pode ter os seus apertos. No caso de Mariana houve “alguns sustos, momentos de maior receio ou de maior fragilidade, coisas normais para a realidade de Angola”. Mas nem isso fez a caldense interromper a missão antes da hora. “Regressar antecipadamente para Portugal, nunca foi sequer algo que me tivesse passado pela cabeça”, frisou a jovem, adiantando que uma experiência deste género tem “tanto de duro como de apaixonante”, uma das frases que a acompanhou ao longo de toda a missão.
Agora em Portugal, quando questionada sobre o que retirou desta viagem, Mariana respondeu que “posso ver a missão como uma viagem pela fé, pelo amor e pelos sentidos e de aproximação ao outro e uma viagem que não acaba nunca mesmo com o regresso a Portugal… uma viagem em que se dá mas também se recebe tanto”.
Esclareceu ainda que mantém o contacto “regular” com Benguela e o desejo de continuar em missão, seja onde e como for, também permanece…
Apesar de sentir sempre um apelo grande para dedicar o seu tempo ao voluntariado, para já a jovem está “focada em reorganizar a vida por cá, continuando em missão de algum modo e em ir vivendo o dia-a-dia, deixando fluir…acredito que o que virá, seja onde e como for, será bom”.
Para quem quer ser voluntário e não sabe por onde começar ou o que fazer, a caldense explicou que “hoje em dia é muito fácil ter acesso às diversas entidades que tanto precisam de voluntários. Penso que é fundamental a pessoa ter noção do tipo de voluntariado que quer fazer e da disponibilidade que tem para assumir esse compromisso. São diversas as áreas em que pode fazer voluntariado e há um mundo de possibilidades para darmos de nós a quem mais precisa. É fundamental conhecermo-nos muito bem de forma a podermos dar o melhor de nós da melhor forma possível a quem mais precisa”.





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