“Se havia dúvidas da importância que este evento tinha para o país, ficou claro pela forma como as entidades privadas como editoras, fundações e instituições se associaram ao evento, de norte a sul do país, e até transatlântico”, disse Humberto Marques, acrescentando que o “fato de termos tido escritores brasileiros que vieram às suas próprias expensas evidencia bem a importância que depositam neste evento de língua oficial portuguesa”.
O presidente da República, Marcelo Rebelo Sousa, que costuma ser presença certa no Folio e até sugeriu o tema desta terceira edição, não pôde estar presente este ano, mas mandou mensagem ao presidente da Câmara a dizer que mantem o seu apoio através do “alto patrocínio da Presidência da República para a próxima edição do Folio”.
“O Folio não é de Óbidos, é de todos”, sublinhou o autarca, reconhecendo a situação “conjuntural” em que realizaram o evento, mas que já conseguiram provar o que se tinha de “provar ao ministério da Cultura, Economia e Turismo”.
O apoio do Turismo de Portugal e da administração central esteve ausente na edição de 2017, situação que o autarca acredita que será revista. “Acredito que o Turismo de Portugal será um parceiro ativo, tal como o Ministério da Cultura ou da Economia”, referiu. “Sendo este evento que representa um branding internacional, e de reforço da marca de Portugal no estrangeiro, acredito que o Turismo se envolva muito mais no evento”, acrescentou Humberto Marques.
Quanto à falta de apoio financeiro da Comunidade Intermunicipal do Oeste para esta edição do Folio, o autarca disse que “é um evento que já ultrapassou as fronteiras do Oeste e não me parece que seja esta região que deva assumir este evento, porque é do país”.
Quantas pessoas passaram pela vila medieval durante o festival? Humberto Marques destacou a “boa afluência”, mas como este ano houve uma maior descentralização dos eventos espalhados pela vila e não se cobrou bilhética para participar nas mesas, não consegue saber precisar o número real de visitantes.
Mesmo com os cortes das verbas, o Folio realizou-se com o apoio dos parceiros, mas segundo o presidente da Câmara de Óbidos, “as editoras e fundações são entidades privadas e não podem patrocionar o evento todos os anos. É como pedir aos portugueses que paguem a fatura de uma matéria que é importante”, apontou.
Acreditando que vai ter apoio, mas mesmo que não tenha, Humberto Marques disse que a “quarta edição do Festival Literário vai realizar-se”.
“Na próxima semana vamos reunir para fazer balanço desta edição e depois avançaremos com o próximo tema”, revelou o autarca.
No entanto reconhece que com dinheiro é possível fazer “acrescentar mais coisas, trazendo autores de Prémio Nobel da Literatura ou cabeças de cartaz”.
Quanto à data da quarta edição do Folio, que este ano não decorreu em setembro como era habitual por causa das eleições autárquicas, vai segundo Humberto Marques continuar a realizar-se em outubro porque estão a ponderar um novo evento para setembro ligando a agricultura e turismo à literatura. “O objetivo é apostar mais na estratégia Óbidos Vila Literária, que é muito mais que a literatura”, adiantou.
“Ficções do Interlúdio” encerrou o Folio
A estreia do espetáculo “Ficções do Interlúdio” concebido pelo compositor Helder Bruno, que associou o tema desta edição “Revoluções, Revoltas e Rebeldias” – ao universo literário de Fernando Pessoa, marcou o encerramento do Folio 2017.
Helder Bruno concebeu um espetáculo em que a sua música, os trechos e poemas de Fernando Pessoa e as fotografias de Lieve Tobback pretenderam remeter o público para um “universo pessoal, imagético e sensorial, ficcional ou não”.
O concerto inédito contou com um conjunto de cinco poemas, do qual Helder Bruno adaptou “Hiemal” e compôs a música que foi interpretada por Nuno Guerreiro. Ao longo do espetáculo o ator Ricardo Carriço apresentou um pouco mais das “Ficções do Interlúdio” e do universo de Fernando Pessoa e a voz de Mafalda Camilo (soprano) surpreendeu.
Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier bateram recordes de assistência
No sábado, Ricardo Araújo Pereira voltou a Óbidos. A presença do humorista no Folio, pela segunda vez nesta edição, começou com autógrafos na Casa da Tinta da China.
Desta vez o humorista português e o brasileiro Gregório Duvivier entram num bar…e aí esteve o mote para o festival de riso que esgotou por completo a praça da criatividade.
Os dois humoristas bateram recordes de assistência na mais concorrida mesa do Folio, com cerca de 400 pessoas rendidas durante hora e meia aos dois comediantes.
A sessão arrancou com Ricardo Araújo Pereira a recitar poemas “badalhocos” do livro de Gregório Duvivier, “Sonetos”, editado pela Tinta da China. Foi o ponto de partida para a batalha de sotaques, um imitando o outro, numa disputa de vogais abertas e fechadas. “Vocês têm um problema com as vogais, fazem mais ou menos como o governo espanhol com a Catalunha: não reconhecem”, disse Duvivier. “Nós fechamos as vogais e vocês abrem demais”, replicou Ricardo Araújo, dando exemplo como Bebé- Bebê e Cocó – Cocô”.
Para além de ironia sobre o pior dos dois países, os humoristas falaram do racismo, violência doméstica e até Madonna e o presidente dos Estados Unidos entraram no cenário.
A sessão de riso terminou com Gregório Duvivier a ler um excerto do novo livro de Ricardo Araújo Pereira, “Reacionário com dois cês — Rabugices sobre os novos puritanos e outros agelastas”, que chega às livrarias a 10 de novembro, mas que esteve à venda em Óbidos durante o Folio.
A mesa foi um dos pontos altos do festival.
No sábado foi dia de chuva de estrelas no Folio. Rodrigo Leão, Manuel Alegre, José Eduardo Agualusa, Milton Hatoum e Julián Fuks também andaram por Óbidos no penúltimo dia do festival.
Manuel Alegre conversou com João Gobern sobre “O canto ou as armas”. Julián Fuks e Ana Margarida de Carvalho falaram sobre “Os náufragos e os resistentes”.
Os escritores Ondjaki (angolano), Estêvão Azevedo (brasileiro) e Cherie Dimaline (canadiana) abordaram a “revolta nas colónias à rebeldia nas metrópoles”.







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