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Sentem-se ao lado de mulheres sábias e ouçam as suas histórias…

Maria Dulce Horta

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“É preciso calma para escolher um vento em que valha a pena empreender o seu voo” (Sherazade).
Maria Dulce Horta

As mulheres sábias são tecedoras de histórias, são transmissoras de valores, afetos e universos carregados de simbolismo. Sentarmo-nos ao lado das nossas mães, amas, avós ou tias para ouvi-las com o coração é quase como um ritual, como um modo de se conectar com nosso passado para adquirir novas forças no presente.

Este tipo de legado oral que as gerações mais antigas transmitem normalmente tem um impacto muito maior do que a simples herança genética ou até mesmo material que podemos receber dos nossos pais ou avós.

É muito certo que existe uma intencionalidade clara nessas histórias, porque são transmitidos valores, princípios e um universo carregado de magia, espiritualidade e inspiração que nunca chegamos a esquecer.

Do ponto de vista da Antropologia, a mulher sempre foi uma grande transmissora de cultura, desde a antiguidade. Foi ela que reuniu aos seus pés e à barra da sua saia as gerações mais jovens para lhes oferecer o presente da palavra e da oferta de um relato, de uma história ou de uma lenda.

A voz feminina serviu durante muitos anos não só como um canal maravilhoso de aprendizagem, mas também como o suspiro que dá forma e inspira as mentes mais jovens em relação à mudança, a um progresso mais equitativo, mais audaz e, ao mesmo tempo, sensível.

Muitas vezes levantamos o olhar para Países vizinhos como os que se estendem ao longo do Egito, da Tunísia ou da Líbia e imaginamos a clássica mulher submissa, sem voz ou direito ao voto, enclausurada nesse tipo de cultura marcadamente patriarcal. No entanto, estamos errados se pensamos assim, porque a mulher nunca ficou calada, na verdade, já conseguimos ouvir seus gritos e seus rostos, mas muito lentamente eu sei…reivindicando a necessidade de uma mudança na Primavera árabe de 2011.

Elas sempre estiveram aí, com sua presença, com seu olhar sábio e, acima de tudo, com a sua voz, assim como a mais emblemática de todas as contadoras de histórias: “Sherazade”.

Não importa que o contexto em que elas habitem seja opressor ou discriminatório. Algumas já iniciaram revoluções pacíficas em cenários privados através da palavra, através de uma linguagem que combina a sensibilidade e a inteligência, o tradicional e o desafio.

Por outro lado, é muito comum que as mulheres contem histórias de mulheres, pois é nestes relatos que se integra também a própria história da vida. São legados orais que costumam ser silenciados no âmbito público por serem incómodos ou revolucionários demais. Daí a importância desses espaços íntimos e cúmplices onde as avós, as mães ou as tias reúnem com os filhos e netos…para lhes explicar o que outra mulher foi capaz de fazer.

São formas extraordinárias através das quais o uso da palavra age como consciência crítica, como canalizadora do progresso e desse impacto que parte do subjetivo e do emocional, para chegar até o âmbito público e à realidade.

As histórias funcionam como forma de terapia…escutar uma história significativa e inspiradora funciona em nós como um verdadeiro “salto quântico”. Ou seja, nos impulsiona a um estado mais elevado, a esse” insight” onde devemos tomar consciência de uma verdade para iniciarmos a mudança.

Assim, também não podemos nos esquecer da forma como nosso cérebro reage quando ouve um relato transmitido de forma oral: não ficamos apenas com a mensagem, a nossa mente se encarrega também de deixar uma marca emocional, criando assim uma recordação significativa e permanente. Isso explica porque ainda agora, já a usar as nossas roupas de adulto, lembramo-nos com tanta precisão das histórias que as nossas avós nos contaram na infância.

O uso da palavra é a arte de toda terapia, é a ferramenta usada para dinamizar, para confrontar e para propiciar o autodescobrimento e a mudança. Portanto, não podemos negar que todas essas histórias transmitidas pelas mulheres desde a antiguidade também serviram como uma forma de cura e de crescimento pessoal para as gerações seguintes.

Um relato quase sempre esconde uma série de valores e enfatiza certas prioridades de vida nas quais nos inspiramos. Não custa nada sentarmo-nos junto das nossas mulheres sábias, das nossas anciãs para ouvirmos as suas histórias do passado, aquelas que nos falam de outra época e de outros tempos onde muitas vezes existem experiências pessoais que são muito conhecidas para nós.

Porque o amor fala sempre o mesmo idioma, porque as deceções são experimentadas da mesma forma no passado e no presente. Vamos escutar as suas vozes, vamos participar deste legado que não se deve perder e vamos procurar e encontrar instantes de cumplicidade com estas mulheres sábias para nos deleitarmos com as suas experiências, com os seus belos olhares que refletem o tempo e uma sabedoria de que todos nós somos merecedores.

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