Estranhamente, o que tem mobilizado o eleitorado do Reino Unido tem sido o nacionalismo. Não deixa de ser surpreendente a aceitação, num primeiro momento entusiástica, mas actualmente já em perda, do discurso nacionalista de Theresa May, num país feito de diferentes nações e, por isso, acolhedor e cosmopolita por natureza. No mundo de hoje não haverá nada mais retrógrado e prejudicial que uma ideologia nacionalista. Valorizar a ideia de um conjunto de indivíduos da mesma raça e credo, com a mesma língua, cultura e história, confinados num território que presumem exclusivamente seu, além de humanamente execrável é um atavismo isolacionista, contraproducente e autodestrutivo. O isolacionismo não resolve nenhum problema neste mundo em que somos cada vez mais interdependentes.
Mas eis que o resultado destas eleições antecipadas no Reino Unido traz inesperadamente alguma esperança.
Theresa May resolveu convocar eleições três anos antes da data prevista, para ganhar a legitimidade que, no seu entender, não lhe foi suficientemente atribuída com a sua nomeação dentro do Partido Conservador, na sequência da renúncia de David Cameron ao cargo de primeiro-ministro por causa do resultado do referendo que deu a vitória ao Brexit.
May achou que venceria folgadamente os trabalhistas, que reforçaria assim a estabilidade do Executivo e que passaria a ter um trunfo decisivo no processo negocial com a Europa. Mas a campanha correu-lhe mal. E o mal de May foi a oportunidade de se dar melhor a conhecer. O que sobressaiu nos seus discursos radicais e pouco empáticos foi uma espécie de holograma thatcheriano, anacrónico e odioso para o eleitorado mais jovem, a sua duplicidade de princípios quanto ao Brexit (começou por se posicionar ao lado de Cameron, a favor da permanência na UE) e a sua mediocridade política no aproveitamento do clima de tensão suscitado pelos atentados terroristas de Manchester e Londres.
Perante o resultado eleitoral decepcionante, e para garantir a sua sustentabilidade, Theresa May tem de negociar o apoio dos dez deputados unionistas irlandeses do DUP, o que não é uma estratégia consensual para os tories, porque o Democratic Unionist Party é extremamente conservador e retrógrado. É contra o casamento gay — a Irlanda do Norte é a única nação do Reino Unido em que continua a ser ilegal —, é contra o aborto, nega as alterações climáticas e é adepto do criacionismo. Surgiu imediatamente uma petição online contra este acordo, atingindo rapidamente mais de meio milhão de assinaturas.
Theresa May tem agora menos deputados conservadores, menos apoio popular e menos confiança, e terá mais dificuldade em obter um bom acordo para o Brexit. E não falta, numa impaciente fila de putativos sucessores, quem questione a sua continuidade.
Do lado trabalhista, Jeremy Corbyn, não sendo um europeísta militante, teve a inteligência de não insistir na dicotomia entre nacionalistas e europeístas e centrou-se num programa que os media consideraram suicidário: renacionalização dos correios e caminhos de ferro, defesa do Serviço Nacional de Saúde, reforço da Escola Pública, ensino superior gratuito, investimento na habitação e um sistema fiscal mais progressivo. E foi isto que fez a diferença perante o eleitorado jovem.
May vê-se agora acossada pelo seu próprio partido, está mais sozinha, tem menos amigos e está em posição debilitada na negociação do “Brexit” com a União Europeia. Para conseguir um acordo comercial favorável com a UE, May tem agora menos condições para revogar leis de direitos humanos sob o pretexto dúbio do combate ao terrorismo, como prometeu após os atentados de Manchester e Londres, terá de fazer cedências relativamente à circulação de pessoas e aos direitos dos emigrantes europeus no Reino Unido. Theresa May é agora mais May less ou até, simplesmente, May not. Ainda Bem.



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