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Adolescentes à solta

Francisco Martins da Silva

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Mais de mil rapazes e raparigas entregues a si próprios durante uma semana num hotel o mais longe possível de casa é a receita ideal para o desastre. Só pode dar asneira, todo o tipo de asneira. Se não é logo no primeiro dia, será no segundo. Se juntarmos a esta receita o ingrediente “regime tudo incluído”, temos, desde o primeiro momento, indigestão e bebedeira permanente.

Os hotéis que fazem este tipo de negócio merecem todos os estragos que possam ocorrer. Estão bem uns para os outros, os jovens alarves, os seus papás idiotas e os empresários espertalhões.

E poderíamos encerrar aqui este assunto, se não se chamasse a isto “viagens de finalistas” e se os destinos não fossem no estrangeiro.

A expressão “viagem de finalistas” remete para o universo da escola, dos professores, do Ministério da Educação e dos pais e encarregados de educação. Acontece que se trata afinal de viagens para um qualquer bar aberto soalheiro, em direcção à sociabilidade alcoólica, de cuja organização e acompanhamento estão completamente excluídos, desejavelmente excluídos, quaisquer adultos responsáveis, desde as direcções das escolas aos pais. São viagens feitas à margem das escolas, não são cobertas pelo seguro escolar e não têm o acompanhamento de qualquer professor. Portanto, nada disto tem a ver com escola e a palavra “finalistas” deveria ser banida destes programas de férias.

Se a irresponsabilidade e insensatez destes pais, que cedem a todas as exigências e aceitam tudo isto com a mesma displicência com que no ano seguinte sorrirão perante a praxe, sob a justificação de que se o filho ou filha não for na viagem passará a ser a ovelha negra da escola, está para lá de qualquer qualificação, é também chocante que as campanhas eleitorais das Associações de Estudantes sejam patrocinadas e condicionadas pelas agências que organizam estas viagens.

Estas agências começam por aliciar alguns dos finalistas com viagens de graça, ou a correspondente quantia em dinheiro, por cada X clientes que angariarem entre os colegas. Depois “colaboram” na campanha para a eleição da Associação de Estudantes, contratando artistas de terceira linha e fornecendo equipamento diverso, desde insufláveis a material de som. Dantes, as listas que concorriam às Associações de Estudantes eram apoiadas pelos vários partidos políticos, através das suas juventudes partidárias. Agora, cada lista é apoiada por uma agência de viagens, havendo sempre dinheiro a circular à margem de qualquer controlo parental ou fiscal. No fim, ganha a lista que tenha conseguido o apoio mais ensurdecedor e a viagem para um hotel em que o bar aberto funcione ainda antes das onze da manhã.

Ou seja, se a primeira experiência democrática dos nossos adolescentes é feita de aliciamento e corrupção, só podemos esperar que as grandes negociatas da banca, a reeleição de autarcas cadastrados, todo o tipo de prepotência e compadrio institucional se perpetue.

Não é ainda de somenos importância o facto destes festivais de javardice ocorrerem em países estrangeiros, geralmente em Espanha, sendo disso feito sempre um grande alarde mediático que prejudica a imagem de Portugal. Estes jovens e os seus inconscientes pais contribuem assim para o discurso acerca de copos e mulheres dos nossos mui castos, sóbrios e honestíssimos parceiros do norte da Europa.

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