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Ricardo Araújo Pereira considera o humor “uma forma de cobardia”

Mariana Martinho

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O “Ciclo de Liberdades” levou até Óbidos no passado sábado, para mais uma “conversa formal”, mas desta vez com “muito humor à mistura”, um humorista e escritor português bem conhecido por fazer parte dos “Gato Fedorento”, Ricardo Araújo Pereira, que considera que “o discurso humorístico parece extravasar os limites da liberdade de expressão”.
Ricardo Araújo Pereira falou sobre liberdade de expressão

Numa parceria entre a Óbidos Vila Literária e a Tinta da China, o “Ciclo Liberdades” até abril, com um autor por mês para falar sobre liberdade de expressão, começou com a presença de Luaty Beirão, e no passado sábado foi a vez de Ricardo Araújo Pereira, que lançou livro “A Doença, O Sofrimento e a Morte Entram num Bar”, uma “espécie de manual de humor”.

A obra foi editada pela Tinta da China e sua responsável, Bárbara Bulhosa, também marcou presença em Óbidos e acompanhou a conversa, que devido à elevada afluência de curiosos, deslocou-se para o auditório municipal da Casa da Música.

Humberto Marques, presidente da Câmara Municipal de Óbidos, começou por destacar que o “município continuar a investir num projeto e numa estratégia de criatividade de um território que se afirma pela inovação ao serviço dos setores de atividade, desde as áreas mais clássicas às contemporâneas”. Aliás, sustentou que esta parceria é “uma boa semente” que está a começar a dar os seus primeiros frutos no município.

O autarca também disse que a “cultura é um denominador comum de desenvolvimento e criação da riqueza social. Por isso, procuramos investir tanto na cultura, sobretudo em territórios de baixa densidade populacional, que se querem afirmar na área da criatividade”, mostrando assim que é possível atrair talentos e misturá-los com os já existentes.

Passando palavra a uma das personagens que nos faz rir em Portugal, Ricardo Araújo Pereira começou por observar um vídeo feito com as reflexões das crianças sobre “A Liberdade de Expressão”, respondendo posteriormente a algumas questões.

Numa conversa sempre com muito humor à mistura, Ricardo Araújo Pereira caraterizou-se “não como um lutador mas apenas uma pessoa que quando estão a pisar, eu digo: Alto, isso está a aleijar-me”.

Para sustentar esta tese, o humorista referiu que nas “sociedades iguais à nossa é mais prejudicial mandarmos calar uma pessoa do que deixá-la falar”, admitindo que existem exceções que estão descritas na lei.

“Tirando essas exceções raras, não se manda calar uma pessoa, por muito que o que ela diga seja algo grotesco ou estúpido”, frisou o humorista, que concorda com essa ”teoria”, exemplificando com alguns episódios. Aliás, afirmou que trata-se de uma “questão de higiene”, pois “nós não sabemos se um estúpido é um estupido até abrir a boca”.

Outra razão que mencionou foi a partir do momento em que uma ideia não admite ser contestada, essa ideia deixa de ser uma convicção e passa a ser um dogma. Além disso, afirmou que a perspetiva sobre liberdade de expressão tem vindo a mudar nos últimos tempos, como o significado de ofensa e de ofendido.

“Antigamente as pessoas não se ofendiam por tudo e por nada, hoje essa perspetiva mudou”, sustentou o humorista português, dando como exemplo as redes sociais.

Na era das redes sociais, uma “simples piada torna-se uma coisa séria”, pois diariamente os internautas indignam-se por tudo. Afirmou que “basta a pessoa dizer que está ofendida para se dotar de uma autoridade absolutamente incontestável. Hoje tudo é sagrado”.

“Aquilo que as redes sociais impõem não é só uma punição, é uma punição perpétua”, frisou, adiantando que tem “um verdadeiro poder, isso parece grotesco”.

O autor da obra “A Doença, O Sofrimento e a Morte Entram num Bar” defendeu que o problema está na interpretação que as pessoas fazem das palavras ou piadas que ouvem.

“O discurso humorístico parece extravasar os limites da liberdade de expressão”, explicou o humorista, exemplificando com histórias e até cenas do Gato Fedorento. “Infelizmente, hoje há uma inclinação para a literalidade que tem tendência para tornar toda a comunicação praticamente impossível, acabando por dramatizar depois no vocabulário”.

A partir do momento em que as pessoas não têm capacidade para perceber o valor das palavras, segundo o autor, “estamos perdidos”, sendo “um entendimento absolutamente infantil da linguagem”. Deu como exemplo “se uma pessoa for na rua e dizer: Oh preto vai para a tua terra”. Eu considero essa pessoa é um energúmeno e uma besta, que não deve ser punida. A frase desqualifica mais a pessoa que diz do que a pessoa que é alvo da frase”.

Para o autor, “é impossível dizer aquilo que queremos sem ofender ninguém”, adiantando que “a liberdade de expressão” sempre foi uma vantagem para as minorias.

Questionado por uma criança “se é preciso ser humorista para fazer-se humor?”, o humorista disse que era “uma boa questão, mas não, não é”.

Ricardo Araújo Pereira caracteriza o humor “como uma forma de cobardia”, que utiliza “uma espécie de desfeita inútil”, para fazer rir as pessoas. Sublinhou que o seu objetivo é fazer rir as pessoas, admitindo que “as crianças têm razão, aquilo que eu às vezes digo ofende as pessoas”.

Questionado sobre os limites no humor, Ricardo Araújo Pereira admitiu que “é claro que eu tenho limites”, dando como exemplo que “nada pior do que fazer piada da morte de um filho, e por isso não faço”.

O humorista também esclareceu que na sua opinião, os limites para o humor são “os mesmos da liberdade de expressão”, adiantando que a linguagem humorística possui características específicas, sendo que “há coisas que se podem dizer num contexto humorístico, que seriam inadmissíveis noutro tipo de contexto”.

O “Ciclo de Liberdades” terá como próxima convidada a escritora Dulce Maria Cardoso.

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