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Crónica

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Passada a fronteira do Turquemenistão, e já à entrada do Uzbequistão, esperávamos que de tudo um pouco acontecesse, por entre revistas e interrogatórios; mas (uma vez mais) o Ronaldo fez o nosso dia! Ser de Portugal é muito interessante, nomeadamente viajando. Quando não é pelas laranjas, é pelo futebol. Ninguém sabe onde fica no mapa, mas sorriem sempre e tema de conversa nunca falta - seja em que língua for!
Em Uzbequistão também se falou de Portugal ter ganho o Europeu

Aqui, no Uzbequistão, não sentimos qualquer choque cultural: talvez por não termos caído aqui de avião e sabermos já com o que contar nesta Ásia central.

A ditadura sente-se pelas ruas, mas de uma forma mais ténue. Ainda assim, há policiamento em cada esquina, e sabe-se que os locais não podem hospedar turistas, sendo exigido nas fronteiras comprovativos de hotéis, a que chamam de registos. As conversas nunca são muito profundas e os sorrisos são sempre rasgados. Ainda assim, ficámos sempre hospedados por couchsurfing, com a certeza porém de que vivíamos juntos o receio da polícia. Pouco barulho em casa, nada de dar nas vistas ou falar em inglês por perto do bairro.

Também à revelia da polícia, se faz a troca de dinheiro: 1dólar são 3000sum à taxa legal no banco, mas é no mercado negro que se fazem conversões com o dobro do valor.

Também nos mercados tradicionais, por todas as cidades, encontramos o que de mais típico há. Chamados de bazares, são grandes e variados. Conseguem fazer-nos lembrar a feira de Segunda-feira e a Praça da Fruta, mas por norma com um edifício para as carnes e laticínios e com o triplo da confusão. Os frutos secos e frutas desidratadas são um mundo, também muitas frutas e verduras locais deliciosas. Sempre com pão e doces típicos, completamente diferentes do que conhecemos. É preciso negociar sempre, mas discretamente. No fundo, dizer um valor abaixo. Mas muito baratas são as coisas: 1kg de maçãs ou tomates, 25 cêntimos e os pepinos conseguem-se a 9 cêntimos por quilo.

Mas é também pela vida nos mercados que nos sentimos longe de casa e dos nossos cuidados: vendem por exemplo amoras num grande alguidar, e no fundo deste começa a acumular-se o molho das frutas. Então, vemos que têm 5 copos de vidro de diferentes tamanhos e preços (do cálice ao copo alto); com um prato empurram ou servem as amoras para um saco para pesar na balança, e com os copos apanham o molho do fundo do alguidar e vendem-no como uma bebida! E as pessoas locais compram e bebem, muito! Mas depois surge um pequeno pormenor: nunca lavam ou trocam os copos. Acabados de beber, voltam-nos a encher para vender. E assim vivem e fazem negócio.

E por entre os negócios que se fazem, conhecemos uma jovem a vender lenços. Com um sorriso nos lábios, confessou-nos a sua história de vida. Casada muito jovem foi, como manda a tradição, viver para casa dos sogros. Lá passou a trabalhar do nascer ao pôr do sol. Depois engravidou, mas o primeiro bebé morreu com 6 meses de gestação por excesso de trabalho e carga. Já do quarto filho foi obrigada pelo marido a abortar, por ser mais uma menina. Não tem tempo livre nem para se arranjar pela manhã, afirmando que por isso o marido agora procura outras mulheres. O que também manda a tradição: não tão evidente, mas ainda muçulmana, a religião permite a poligamia.

E a vida pelo Uzebequistão fora assim se faz, com temperaturas diárias entre os 35 e os 55 graus, com ambiente muito seco e árido, da capital para cidades históricas e ancestrais, lindas; com monumentos, construções, em cor terra e azul turquesa, de fazer parar o coração. Produzem um pouco de tudo por todo o lado e fabricam até os seus próprios carros. Quanto à internet, não que seja má de todo, mas de tão dispendiosa ninguém tem. E embora feito de gente pobre, foi aqui onde mais vimos gente com dentes de ouro. Descobrimos por entre as gentes que chegam a arrancar dentes saudáveis para os pôr na moda. E assim, mais ainda, reluzem os sorrisos!

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