“Apesar do baixo custo das novelas em Portugal, já se conseguiram produtos de boa qualidade”
“A novela é um produto cultural, mas também industrial”, afirmou o convidado Eduardo Cintra Torres, em mais uma sessão “21 às 21”, organizada pelo Movimento Viver o Concelho (MVC), no passado dia 21, na sala da União de Freguesias Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório. Desta vez, o professor e crítico de televisão debruçou-se sobre a realidade das telenovelas em Portugal e considerou que há cada vez mais publicidade introduzida nas telenovelas, bem como nos programas de televisão.
Perante uma sala cheia de curiosos, Eduardo Cintra Torres começou por falar da sua mais recente obra “Telenovela, Indústria & Cultura, Lda”, onde retrata a construção deste género de ficção (a escrita, a produção, a realização e a edição) e a apresentação/receção do produto pelo público. Para efeito, decidiu estudar e perceber como as novelas, que são “programas contínuos por vezes com mais audiências do que os noticiários” e ainda como se processa a relação entre o produto industrial e a cultura.
O crítico de televisão decidiu estudar durante seis meses a novela “Mar Salgado” (SIC), centrando a investigação apenas num episódio. Esteve presente em reuniões, gravações, bastidores e ainda entrevistou os atores e o público, bem como analisou o guião e documentação técnica para perceber a construção do produto industrial.
Eduardo Cintra Torres também destacou que por detrás de cada episódio existe uma equipa a trabalhar todos os detalhes, para dar uma aproximação da realidade à ficção, bem como inclui pessoas da vida real para se representarem a si mesmas, como por exemplo Júlia Pinheiro e o futebolista Frederico Venâncio. Ainda sublinhou que ”as telenovelas de hoje estão muito melhores do que aquelas que passaram há quatro anos”.
“A telenovela é um produto altamente industrial e ao mesmo tempo é um produto da cultura”, afirmou o crítico. Os três canais generalistas chegam a apresentar dezasseis episódios por semana, no horário nobre de segunda a sábado, sem um dia de folga. Também destacou que as pessoas utilizam no seu quotidiano algumas expressões das telenovelas, especialmente as cómicas.
De acordo com o convidado, “cada episódio de uma telenovela custa 35 mil euros em Portugal, até menos, enquanto no Brasil custa dez vezes mais, em que os atores chegam a estar a três meses a trabalhar para encarnar a personagem”. No entanto, também frisou que “apesar do baixo custo de produção das novelas em Portugal, já se conseguiram fazer produtos de boa qualidade, que até já ganharam os mais importantes prémios internacionais”.
Segundo o crítico, este produto recorre várias vezes ao dia das imagens de exteriores para acrescentar uns minutos aos episódios, bem como procura retratar temas atuais como “é chamado ‘merchandising social’.
Outro tópico falado por Eduardo Cintra Torres foi a publicidade, que intervém cada vez mais nas produções.
“A publicidade vai entrando cada vez mais na produção de uma novela, em que existe sempre uma mercearia ou um bar onde as marcas colocam os seus produtos”, referiu o convidado, dando como exemplo o caso da Compal. Também salientou que para compensar a perda de audiências durante os intervalos, coloca-se a publicidade dentro dos próprios conteudos, pondo as proprias personagens a falar do produto, “por vezes de maneira pouco natural”.




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