Nuno Costa Santos apresenta-se como uma personagem que dispõe de um vasto currículo na área da escrita. Desde livros de poesia, de crónicas, de contos, bem como a biografia de Fernando Assis Pacheco, os blogues, e ainda os programas de rádio e de televisão. Para o autor, o seu primeiro romance é “ um livro que mistura vários géneros, em que espero que os leitores se percam entre a realidade e a ficção, que se sintam confusos”.
Logo nas primeiras páginas somos brindados com a história do seu avô, João Pereira da Costa e o olhar de Nuno Santos sobre o livro escrito pelo mesmo, na estante da sua casa, em Lisboa. Recorda-o como “um homem sentado numa poltrona, sempre acompanhado com uma garrada de oxigénio comprido e estreita de onde saíam tubos que se ligavam às narinas”. Durante seis anos o seu avô relatou a sua dolorosa experiência de tratamento da doença, tuberculose, no sanatório do Caramulo.
Passados vinte anos, Nuno Santos decidiu escrever o primeiro romance, o “Céu Nublado com Boas Abertas”, onde optou por fazer uma espécie de “diálogo entre a experiência do avô e a viagem aos Açores de hoje”. Assim, ao longo das páginas da obra, verifica-se uma mistura entre todas as histórias encontradas na ilha de São Miguel durante a sua estadia e as pequenas descobertas feitas pelo mesmo, quando reviveu alguns lugares da infância, onde “confunde-se a realidade e a ficção”.
À medida que dá a conhecer a história da sua família ao leitor, intercala com episódios de outras personagens “peculiares e fundamentais”, como a Ruiva do Pico, o Marinho, um homem que viveu décadas ressentido por um porteiro, e um casal asiático que tenta criar raízes numa terra portuguesa.
Para Nuno, a obra “baseia-se muito na realidade, e ao mesmo tempo, tem armadilhas da ficção, criando universos que de facto vivi e outros que inventei”, acrescentando que também é um diálogo entre dois homens de gerações diferentes, avô e neto.
Ao mesmo tempo, descreve como um ”ato de gratidão para com o meu avô e com a minha terra”. Questionado sobre o título, esclarece que não podia existir titulo mais literal, “um céu nublado, pelo definhamento do avô à tuberculose, com boas abertas para um novo e futuro livro”.
“O Céu Nublado com Boas Abertas” retrata o destino “quase fatal do avô” de Nuno Santos, na estância do Caramulo, e das pessoas que vivem, no século XXI, em São Miguel.
“Morena das Caldas fala sobre o romance do português dos Açores”
Luísa Arroz, subdiretora da ESAD.CR foi a convidada para apresentar a obra na livraria, descrevendo-se como “Morena das Caldas fala sobre o romance do português dos Açores”.
Começou por falar na personagem a “Ruiva do Pico”, que “anima o enredo, tão central quanto fugaz de um dos episódios, sempre com um tom zombeteiro, que atravessa o texto, e que nos faz rir, perante as confissões e ressentimentos de outras personagens, que nos vão aparecendo quase como sobreviventes de um certo naufrágio existencial”.
“O Céu Nublado com Boas Abertas” retrata um tom que “estamos habituados a ouvir nas conversas e textos do Nuno Santos”. Sendo este um autor de um conceito “melancólico, que descreve tão bem, o nosso quotidiano que por vezes, nos escapa”.
Ao mesmo tempo, Luísa Arroz sublinha o “olhar simultaneamente distante e sem preconceito ou moral, que nos traz uma tranquilidade absoluta na forma como nos conduz”, tanto pelas histórias que forçam a entrada do narrador, bem como o “mau estar interior que embala entre insónias e absurdos”.
“Esse tom de humor baixo funciona como uma linha rítmica que acentua a melodia e é um dos principais motivos pelos quais vos recomendo a leitura deste livro”, adiantou a convidada. Destacou ainda a novela policial que “força a entrada e a visita do narrador aos Açores, complementada pelas personagens açorianas”.
“Há uma certa lateralidade deste enredo que nos entretém, que para mim é genial”, disse Luísa Arroz, enquanto acompanha a tarefa do narrador de contar as histórias da ilha e do seu avô. Também falou sobre a história de romance do “casal na fotografia a preto e branco, e em particular desse homem do retrato”, sendo depois transportados para outra história, através de um manuscrito que é dado a conhecer ao narrador e seremos transportados para a luta lenta, dolorosa contra a tuberculose.
“Entre a novela e o drama do avô também temos um narrador em busca de si próprio”, adiantou, sendo dois tempos históricos que sobrepõem os anos 40 e o presente da ilha. Para a convidada, “não é uma comparação entre épocas ou espaços, mas uma espécie de cartografia de sentimentos, pequenas histórias e confissões, que registam a mudança na continuidade dos lugares quase como quiséssemos fazer uma pergunta”.
“Há algo geracional na forma como este romance olha para o mundo e para a nossa história”, concluiu, deixando o desejo de ir visitar a ilha para “perceber as ironias presentes na obra feitas pelo autor”.




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