Todos os que nos levam, todos os que nos hospedam, todos os que partilham o seu tempo connosco, absorvem-nos e sobra-nos pouco mais que o tempo para descansar – o que é bom, é bom sinal, é enriquecedor, é do melhor que podemos querer. E se a isto somarmos o facto de querermos conhecer e palmilhar cada nova cidade, e deixarmo-nos apaixonar pelos cheiros e sabores, rotinas e sons, pores-do-sol de cada uma, então confessamos: escrever fica para depois. Mas depois, depois queremos tanto partilhar tudo com quem nos segue, e não falhar com nada, que sonhamos com a forma como vamos pôr em palavras o que vivemos!
Já há duas semanas, partimos de Madrid com direção a Saragoça, depois para Barcelona e por fim entrámos em França, por Montpellier. E agora, depois de Aix en Provence, Marselha, Cannes, Mónaco e Nice, seguimos para Itália, com direção a Torino, Milão, Verona, Veneza e Trieste. As histórias não cabem numa mão, mas cabem no nosso coração. A bondade humana não tem limites, e a esperança que resta na humanidade fazem-nos acreditar que o lado bom do mundo está à distância da nossa crença e da nossa busca.
Ainda em Barcelona, uma aventura foi deixar a cidade!Pouco faltava para anoitecer quando apanhámos a primeira boleia do dia, por pouco mais de um quilómetro. Estávamos ainda perto do centro, mas igualmente perto da sua saída, numa estação de serviço.
Por lá, os nossos corações tinham tanto de entusiasmo, como de receio; já era tarde e as previsões meteorológicas não eram as melhores. Não havia sol, mas havia luz. Essa, começava a descer no céu. Como se o fossem pintando à mão, sem que dessemos por ela. O tom de cinzento era cada vez mais carregado. O nosso coração também. Carregado de esperança. Pouco tempo depois de ali estarmos, percebemos mas que mais à frente, havia uma zona melhor para pedir boleia.
Mais à frente, as faixas da estrada tomavam direções diferentes. A nossa seria a faixa da esquerda. Lá, mais à frente, havia um semáforo, com uma possível zona de paragem. Lá, poderíamos mostrar a nossa placa e pedir boleia, porque ali só passariam carros com o nosso destino. Mochilas às costas. Caminho no olhar. Mãos dadas. E juntos conseguimos a nova boleia: o sinal do semáforo onde estávamos acabou por ficar vermelho. Os carros abrandaram. E o primeiro, mesmo à nossa frente, brilhava nos nossos olhos. E brilhou mais ainda quando nos gesticulou que nos levava! Era um jovem de 22 anos e ia fazer mais de 600 quilómetros. 200 deles, comuns connosco. E assim se consagrou a segunda boleia naquele dia. Quase de noite! E nessa noite, com apenas mais uma boleia, chegámos ao nosso destino – Montpellier. Destino esse onde tínhamos a amiga de uma amiga, que nos albergou.
Embora estejamos ainda na Europa, a distância de casa já pesa: os 2000 quilómetros já lá vão e mais de 30 boleias também. Mas é aqui na Europa que ainda estamos confortáveis, onde encontramos amigos, amigos de amigos e famílias que nos fazem sentir especiais. Queridos. É por aqui que ainda não temos grandes barreiras linguísticas, e onde nos conseguimos fazer entender e ser compreendidos. Mais tarde, o roteiro será intenso, mas repleto de amor.
Para já, começam pois a esgotar-se as palavras para agradecer. É que a hospitalidade até à data é tamanha. O nosso coração não tem como não transbordar! O mundo na mão (o nome do nosso blogue) começa a não ser só porque o vamos percorrer pedindo boleia – com a mão, mas porque em cada canto deste, decerto encontraremos a quem só conseguiremos agradecer abraçando – juntando as mãos.
Já por Itália sentimos as primeiras dificuldades; as pessoas são mais fechadas, menos sorridentes. Talvez menos acolhedoras. Temos assim mais dificuldade em deslocar-nos. Mas não é por isso que desistimos. Às vezes o cansaço também pesa. Mas também não é por isso que desistimos. Porque no fundo, quando estamos emaranhados na nossa vida habitual, entre casa e trabalho, amigos e familiares, também temos dias bons e dias menos bons. Em viagem não é diferente; mas há um bónus. Um bónus inexplicável, um ganho que não se vê – sente-se! É por isso que gastar dinheiro a viajar é a única forma de enriquecer.




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