Este ano o acontecimento foi comemorado durante a tarde com a entrega de maletas pedagógicas com informação sobre o 16 de março à Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste (EHTO) e à Escola Técnica e Empresarial do Oeste (ETEO), numa cerimónia que decorreu na ETEO e onde a historiadora Joana Tornada explicou aos alunos o conteúdo das pastas temáticas e a importância de ter conhecimento deste episódio da nossa história que não está nos manuais escolares.
À noite decorreu uma conferência pela investigadora Maria Inácia Rezola, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. A atuação do coro das Caldas da Rainha, que levou à cerimónia evocativa o seu repertório de cançõesheroicasde FernandoLopes Graça, encerrou as comemorações “com a dignidade que os militares merecem”.
Na cerimónia evocativa, a vereadora Maria da Conceição, recordou que há um ano esperavam que este momento do 16 de março fosse comemorado com a inauguração do monumento de oito metros encomendado ao escultor José de Santa-Bárbara, que é para ser colocado em frente à Escola de Sargentos do Exército, mas ainda não foi possível concretizar o projeto.
Para o presidente da Câmara, Tinta Ferreira, a data constitui “um capítulo de enorme relevância na nossa história recente”. Daí ser tão importante comemorá-la e, sobretudo, “explicá-la às gerações mais jovens, contextualizando-a num percurso que acabaria por libertar Portugal de um regime ditatorial”.
Lamentou que a nível nacional seja só as Caldas a assinalar o 16 de março, sublinhando que deveria ser “uma data que o país também deveria comemorar”. Revelou que a obra comemorativa será uma realidade, esperando que esteja concluída para o ano e que sirva para dar um âmbito nacional às comemorações deste acontecimento. Junto ao monumento haverá um centro interpretativo, onde serão colocadas placas explicativas sobre o golpe.
Utilizar a história para atrair turistas
A intervenção da investigadora Joana Tornada suscitou várias perguntas dos alunos. “A nossa história do 16 de março e 25 de abril é algo que se pode vender”, disse aos alunos de turismo, adiantando que “há muitos países que nunca viveram e não sabem o que é uma ditadura e uma mudança política”. Para Joana Tornada, “é importante falar daquilo que aconteceu, do ponto de vista cultural, mas também turístico e do interesse histórico, porque “este acontecimento atrai turistas do mundo inteiro”.
Aos estudantes aconselhou a utilizarem o 16 de março “para serem mais criativos na vida pessoal e também como cidadãos para puderem mudar o mundo e a cidade”.
Para a historiadora do património histórico é fundamental o centro interpretativo do 16 de março para que as pessoas realmente percebam o que aconteceu naquele local. Disse que “a maior parte das pessoas não conhece este acontecimento importante e acha que foi uma tentativa falhada que não teve importância nenhuma”.
À pergunta de uma aluna sobre como se pode vender o 16 de março, Joana Tornada defendeu a criação de uma rota da democracia nas Caldas sobre o 16 de março. Revelou que em Lisboa há empresas privadas que criaram uma rota com vários turistas a passear pela capital pelos caminhos onde passou a revolução. “As Caldas da Rainha também pode fazer parte dessa rota, ligada ou não a Lisboa”, apontou, acrescentando que “o roteiro da democracia tanto pode ser vendido a estrangeiros como a nacionais, porque há muitos portugueses que também não conhecem bem o 25 de abril e o 16 de março e que querem saber mais e que estariam interessados em vir às Caldas conhecer mais a história”.
A investigadora destacou a importância de distribuírem a maleta a estas escolas que têm o curso de turismo “para poderem utilizar a informação para terem novas ideias para a cidade ligadas à democracia”.
Recordou que as maletas, que no ano passado foram entregues aos agrupamentos escolares do concelho, têm como objetivo divulgar e promover o estudo do 16 de março de 1974 a nível nacional e internacional. Segundo, Joana Tornada, a sua criação “nasceu da ausência de documentação histórica sobre o tema nos manuais escolares”.
A maleta possui pastas temáticas que reproduzem documentos compostos por notícias, discursos, entrevistas e fotografias, num formato acessível para todos os alunos.
Faz sentido continuar a comemorar o 16 de março?
No CCC que acolheu a cerimónia institucional, com as entidades do protocolo e convidados, Maria Inácia Rezola, cativou o público com uma intervenção sobre a transição para a democracia em Portugal, oferecendo um contributo inovador e um olhar diferente sobre os acontecimentos, citando alguns autores.
“Faz sentido continuar a comemorar o 25 de abril e o 16 de março?”, questionou a académica, salientando a importância destas “efemérides históricas”, porque com base no passado se “promove a discussão do presente”.
Segundo sustentou, é através da recordação de datas e figuras que se constrói a “nossa identidade”. Por isso, é “importante recuperar estes tempos históricos fortes investidos de grande simbolismo”.
Recordou que no ano passado, na conjuntura específica em que vivemos, muitas das conferências e colóquios, que se promoveram por todo o país rapidamente se transformaram em “verdadeiros comícios políticos”. “Já não era história que se discutia, mas a atualidade”, lamentou.
No final da intervenção, o presidente da Câmara pediu um minuto de silêncio em homenagem aos coronéis Rocha Neves e Casanova Ferreira, militares que participaram no 16 de março de 1974 e que faleceram em agosto do ano passado.







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