Em outubro, exibia a curta-metragem de quase dezasseis minutos “Tito”, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, como projeto final. Na ocasião, a sua namorada, Elodie Almeida, licenciada do mesmo curso, apresentava a curta “Alimenta-me”, de oito minutos.
O casal usava o nome artístico ‘Petite Frange’ (Elodie) e ‘Grosse Moustache’ (David) para os seus projetos na área da fotografia e do cinema, que mostravam nas redes sociais e em espaços públicos. Em alguns casos trabalhavam em conjunto.
Natural de Vila Chã de Ourique, freguesia do Cartaxo, David Duarte tinha ainda identificado como local de residência a cidade das Caldas da Rainha, mas antes da tragédia tinha passado a morar em Santarém com a namorada, de 25 anos.
No dia 11 de dezembro, por volta das 14h30, David ficou paralisado do lado direito, sem conseguir formular frases. Tentava falar mas era incapaz. Elodie ligou para o 112 e quando a ambulância chegou, David estava consciente mas foi levado numa cadeira de rodas, visto que não tinha força na perna direita.
No Hospital de Santarém foi logo colocado em observação. Fizeram-lhe exames e foi transferido de urgência para o Hospital de São José.
Em Lisboa, relatou Elodie numa carta enviada ao jornal Expresso, “anunciaram-nos, descontraidamente, que se tratava da rutura de um aneurisma, que o sangue se espalhou pelo cérebro e que, geralmente, estes casos de urgência teriam de ser tratados de imediato, ou seja, o doente teria de ser logo operado. Mas como os médicos referiram, infelizmente calhou ser numa sexta-feira, logo não iria haver equipa de neurocirurgiões durante o fim de semana. O David teria de aguardar até segunda para ser operado. Deram-me a entender que o sangue espalhado pelo cérebro poderia, muito provavelmente, causar sequelas e posteriormente múltiplos AVC”.
David permaneceu no hospital e posteriormente, devido ao agravamento do estado de saúde, foi colocado em coma induzido, que seria uma forma de não permanecer agitado e de o ajudar a respirar, e de modo também a prepará-lo para a cirurgia na manhã de dia 14, segunda-feira.
A operação consistiria na remoção do hematoma e do coágulo, selando a veia através e eliminando definitivamente o aneurisma.
Na segunda-feira, quando Elodie conseguiu contatar o hospital por telefone, ao princípio da tarde, foi informada de que a operação não tinha sido realizada, sem mais explicações. Só horas depois, quando se deslocou ao hospital, ficou a saber que David “tinha tido morte cerebral e que seria irreversível”.
“Não me deram mais detalhes. Completaram esta grave notícia anunciando que no mesmo dia ou no dia seguinte ele seria operado para a doação de alguns dos seus órgãos”, descreveu.
O caso foi conhecido publicamente no dia seguinte através do Correio da Manhã e despoletou uma série de reações, motivando a apresentação de demissão por parte do presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Luís Cunha Ribeiro, da presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central (que inclui o São José), Teresa Sustelo, e do presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (que inclui o Santa Maria, onde também não há equipa de neurocirurgia vascular durante o fim de semana), Carlos Martins.
A morte ocorreu porque a equipa médica que o poderia salvar recusa trabalhar ao fim de semana pelo valor que o Estado paga. Na conferência de imprensa em que apresentou a demissão, no Ministério da Saúde, Cunha Ribeiro explicou que “nos últimos anos, com os cortes que tivemos na área da saúde, estes hospitais não tiveram a possibilidade de ter recursos humanos para dar resposta a situações de doentes como este”, mas garantiu que não se voltará a repetir o que aconteceu com David.
“Foi autorizado que passe a haver resposta para situações deste género. Doentes em situações semelhantes não terão o mesmo destino”, assegurou, assumindo que “isto não limpa, não permite esquecer ou desculpar” a morte do doente. Ou seja, o falecimento “acelerou” o desfecho de uma negociação que se arrastava para aumentar o valor pago aos especialistas pelo trabalho extraordinário aos sábados e domingos e agora os hospitais de São José e de Santa Maria passam a conseguir tratar estes casos, independentemente da hora ou dia da semana.
O anterior governo tinha efetuado cortes de 50% fora do horário normal, o que motivara a suspensão aos fins de semana da neurocirurgia vascular desde abril de 2014 no Hospital de São José. Trata-se de uma área especializada da neurocirurgia e para a qual poucos clínicos estão preparados, mas noutros grandes hospitais, em Almada, Coimbra, Porto e Braga, o serviço funciona todos os dias.
ESAD.CR emite nota de pesar
A ESAD.CR emitiu uma nota de pesar “pelo falecimento do antigo aluno David Duarte, finalista do Curso de Som e Imagem 2014/2015”. “Neste difícil momento, a ESAD.CR solidariza-se à família neste sofrimento, certa de que o nome de David Duarte será lembrado com muito carinho por todos os alunos, professores e funcionários”, manifestou.
O funeral realizou-se no dia 17, em Vila Chã de Ourique.
Fernando Costa: “É um crime!”
O ex-presidente da Câmara das Caldas, Fernando Costa, exige que o ex-ministro da Saúde, Paulo Macedo, “venha pedir desculpas públicas às famílias e aos portugueses”. “Avisei o senhor ministro, no último Congresso do PSD, que isto ia acontecer”, manifestou publicamente, considerando que os cortes na saúde são “uma vergonha para Portugal e um crime”.




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