“Uma aposta corajosa, ambiciosa, mas indubitavelmente ganha por todos aqueles que acreditaram na afirmação de Óbidos, como Vila Literária”, afirmou o presidente da câmara de Óbidos, Humberto Marques, no final do evento que contou com 459 criadores, 200 autores, 154 sessões literárias, 56 ilustradores, 37 conferências, 36 espetáculos, 14 exposições e 13 livrarias.
Houve várias mesas redondas com escritores nacionais e estrangeiros, como João Paulo Cuenca, Ricardo Araújo Pereira, Gregório Duvivier, Rafael Marques, Mia Couto, Javier Cercas, José Luís Peixoto ou Bruno Vieira Amaral. Juntaram-se ainda a música, teatro, várias exposições e espetáculos de poesia e leitura de textos que transformou Óbidos na capital literária de Portugal. “Ter a sociedade portuguesa a aderir a aulas, tertúlias, conversas de bolso e de mesa e espetáculos, sempre com uma adesão muito expressiva é um sinal claro de grande confiança para o futuro” do festival, acrescentou o autarca.
Humberto Marques disse que não se pode exigir mais de uma primeira edição. No entanto, para Óbidos “era a imagem que nos faltava, a atração destes públicos que nos faltava. Se fosse hoje, haveria coisas que mudariam, mas uma coisa é certa: não vamos deixar de ter esta programação a acontecer em simultâneo”.
O evento contou com muitos visitantes e participantes portugueses mas também muitos estrangeiros oriundos do Brasil, Espanha e de outros países lusófonos.
Para o Folio a organização teve que montar uma logística de catering e estadia. Foram servidas 400 refeições por dia (almoços e jantares) e houve uma média de duas mil dormidas entre os participantes, mais os visitantes.
“Acredito que, a longo prazo, o Folio se pode transformar num local importante de debate da literatura, onde se possa definir tendências da publicação. E que se possa tornar num lugar importante não só para leitores, mas também para editores, livreiros, agentes literários, algo que a Feira do Livro não cumpre”, foi assim que José Eduardo Agualusa, um dos curadores do Folio, definiu o futuro do evento.
De acordo com o curador, “há pequenas coisas que se podem melhorar” em próximas edições, entre as quais o alargamento a áreas como a criação de “oficinas de conto literário, aproveitando a duração do evento para fazer coisas de maior fôlego e poder fidelizar o público”.
O encerramento do Folio
Salomão, o elefante mecânico de grandes dimensões, mascote do Folio, encerrou oficialmente o evento com a performance “Viagem do Elefante”, que foi concebida pelo Trigo Limpo teatro Acert, criada a partir da adaptação livre do conto deJoséSaramago. “O desafio foi partir a narrativa da Viagem do Elefante em vários dias e simbolicamente fechar um acontecimento com esta dimensão é uma emoção muito grande”, disse Pompeu José, que fez a adaptação dramatúrgica e encenação.
Um elemento de pirotecnia também foi utilizado para encerrar o folio onde o fogo envolveu uma estrutura de um elefante onde as cinzas espalharam-se pelo vento com o simbolismo que “o fólio não acabou”. Para Pompeu José, é “importante continuar a lutar para que estas coisas aconteçam, porque cada vez mais a cultura é vista como um luxo ou uma despesa desnecessária, mas faz parte da nossa vivência quotidiana. É muito bonito ver escritores misturados com as pessoas e as conversas serem abertas”.
No âmbito da descoberta dos 450 anos do Rio de Janeiro, Real Combo Lisbonense subiu ao palcopara o último concerto desta primeira edição, numa “magnífica” homenagem a Carmen Miranda. Foi um espetáculo que atravessa quase três décadas de história musical através de um repertório de sambas, marchinhas e outros ritmos tropicais.
O êxito do Festival Literário
O Jornal das Caldas falou com alguns dos participantes, sendo todos unânimes acerca do êxito do Folio. “O festival tem futuro e todas as condições para ser um grande sucesso”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, no passado dia 19, minutos antes do começo da “conversa de bolso” com Ferreira Fernandes.
Para o candidato a Presidente da República é uma iniciativa para a qual prevê “um sucesso galopante”, por “reunir num local especial nomes sonantes da literatura e por ser uma obra sustentada numa vila onde há uma rede de livrarias”.
Na igreja da Misericórdia, durante os ensaios para a interpretação da Ode Marítima de Álvaro de Campos, Diogo Infante e João Gil falaram aos jornalistas sobre o Folio. Para Diogo Infante é “notável”, na medida que se consegue mobilizar “tanta gente, tantos artistas, tantos interesses comuns e partilhados no desenvolvimento de uma iniciativa tão louvável num sítio tão bonito”. “Espero que tenha continuidade e quer artistas quer o público possam disfrutar de um momento que é único e invejável e que possa ser o mote para outros eventos culturais pelo país”, adiantou o ator.
“É fantástico saber que em Óbidos existe um evento com esta magnitude, juntando pessoas de várias áreas à volta da nossa língua, da nossa existência e da identidade portuguesa”, disse João Gil, que achou interessante levar a peça a um templo. “A natureza da Ode e os mares aconteceram num período em que a Igreja Católica teve um papel fundamental na história portuguesa e há frases e passagens do poema que ao dizê-las aqui ganham uma nova dimensão e uma nova leitura e isso é curioso”, disse o artista.
Mais de 300 pessoas ouviram no passado sábado Ricardo Araújo Pereira e Luis Fernando Veríssimo numa conversa moderada por Nuno Artur Silva sobre as diferenças do humor em português do Brasil ou de Portugal e os limites à arte de fazer rir.
“Formidável” foram as palavras do escritor brasileiro Luis Fernando Veríssimo quando no final da mesa de autores o JORNAL DAS CALDAS lhe perguntou sobre o que acha do Folio. “É mais ou menos parecido com a Festa Literária Internacional de Paraty e é uma grande ideia para Portugal”, adiantou o escritor que é famoso por escrever obras de comédia.
Acrescentou que adorou participar no festival em Óbidos e que “tem futuro, inclusive porque este cenário não vai mudar, vai continuar sempre fantástico”.
“Entrei neste barraco e ainda não consegui ver nada”, declarou Ricardo Araújo aos jornalistas que queriam saber a sua opinião sobre o evento. “Sei que o Folio nasceu da ideia de uma pessoa que viu no País de Gales uma coisa que eles lá têm que me parece ótima, que é basicamente isto, uma vila literária com livros por todo o lado e o que eu queria agora fazer era dar uma volta, ver coisas e comprar”, adiantou o humorista.
Quanto à ideia do Folio achou ótimo ser realizado fora de Lisboa e em Óbidos, que é “lindo”.
A conversa que começou pelo Festival Literário rapidamente acabou no Festival Internacional de Chocolate de Óbidos. “Chocolate primeiro, livros a seguir. São prazeres que são compatíveis porque dá para comer chocolate enquanto se lê livro, portanto, muitos parabéns para Óbidos que tem boas ideias”, gracejou.
Marlene Sousa










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