A Revolução dos Cravos deixou memórias diferentes a David Geraldes (MVC), Mário Xavier (PS), José Carlos Faria (CDU), Rui Gomes (PSD) e Manuel Isaac (CDS-PP), que contaram como viveram o dia 25 de abril de 1974. Alguns não participaram diretamente na revolução, mas viveram a ansiedade desse dia. Com histórias diferentes revelaram como o dia que mudou o país, alterou também o seu dia a dia. De acordo estiveram todos que o 25 de abril está a ser cada vez mais desvalorizado, nomeadamente pelos jovens. Passadas quatro décadas, é cada vez mais óbvio que as consequências gerais da revolução e do período de turbulência que se lhe seguiu “pouca influência têm nas gerações mais novas”. No final todos deixaram a mensagem que é preciso continuar a comemorar o 25 de abril até porque “é preciso compreendermos o passado para estarmos no presente e para pensarmos o futuro”, sustentaram.
Luís Ribeiro, presidente da Assembleia Municipal, destacou que a iniciativa antes do 25 de abril “não era possível”. Para este responsável é importante que os jovens interiorizem que “não havia um Portugal assim onde nós nos podíamos juntar e beber um café e falar daquilo que nos bem apetecesse”.
David Geraldes
David Geraldes, engenheiro agrónomo e ex-secretário de Estado da Agricultura, participou ativamente no 25 de Abril de 1974, porque na altura da revolução, com 25 anos, estava a comandar a instrução da Escola de Fuzileiros da Marinha Portuguesa. Foi com emoção que o orador recordou muitos episódios que o próprio protagonizou e que foram historicamente documentados na sessão.
Relatou que na noite de 24 de abril, disseram-lhe que no dia 25 ia numa missão “top secret” que era uma reunião em Monsanto porque ia haver uma movimentação militar. “Às 4 da manhã a unidade entrava em prevenção e a primeira ordem que eu recebi foi para que saísse por volta das 9h30 para o Terreiro do Paço com a companhia no sentido de ir proteger o Ministro da Marinha”, relatou. “Quando estava a chegar à ponte Salazar (ponte 25 de abril) recebi a ordem para regressar ao Comando de Corpo de Fuzileiros, à base Naval de Lisboa”, disse, recordando que viveu “minutos que pareceram dezenas de horas, até à noite aparecer a Junta de Salvação Nacional”.
No dia 26, às sete da manhã, enquanto avançava com a companhia para a prisão de Caxias, recebeu as seguintes ordens: “Liberta os presos e se for necessário bombardeia os portões da cadeia e toma as atitudes que entender necessárias com vista à libertação dos presos políticos”. “Por volta das dez da manhã eu tomava a iniciativa de libertar todos os presos políticos, quando recebo uma comunicação dizendo que o General Spínola não autorizava a libertação dos presos políticos na medida que considerava existirem presos de delito comum”. “Em cima de um jipe, através do megafone, pedi aos presos para entrarem no corredor junto às celas e garanti-lhes que acontecesse o acontecesse, abriria os portões para eles saírem”, lembrou David Geraldes, que depois de se ter encontrado com o General Spínola acabou por cumprir a sua promessa e libertou todos os presos políticos.
Recordou ainda que no dia 27 de abril foi das primeiras pessoas a saber o nome dos dois assassinos do General Humberto Delgado – Casimiro Monteiro e Rosa Casaco.
José Carlos Faria
José Carlos Faria, representante do Partido Comunista, estava em Lisboa a estudar na Escola Superior de Belas Artes quando se deu o 25 de abril de 1974. “Não estava politicamente organizado, ou seja, não tinha nenhuma ligação concreta ao Partido Comunista Português, mas obviamente estava preocupado com que estava acontecer em Portugal”, relatou.
Recordou que no dia da liberdade eram sete e um quarto da manhã quando a senhora que lhe alugava o quarto entrou com euforia dizendo que “há uma revolução”. “Deve ter sido o dia que em Lisboa me levantei mais cedo e fui para o largo da biblioteca pública onde havia a Escola Superior de Belas Artes e no miradouro que dava para o Tejo havia ordem para bombardear o Terreiro do Paço, e estava um colega meu muito preocupado porque tinha um irmão na guarnição como oficial”, contou, acrescentando que “sabe-se depois que felizmente essas coisas não aconteceram”.
Indicou que depois foi para a baixa de Lisboa e havia um cordão militar que impedia a passagem para o Terreiro do Paço. Perante a multidão nas ruas começou a ter “a noção da importância de ser testemunha de um fato e de acontecimentos que são indiscutivelmente os mais importantes da história de Portugal”.
Disse ainda que o movimento na cidade de Lisboa era muito curioso, as tascas e restaurantes tinham fechado e o pessoal ia andado pelas ruas a beber cerveja, e em determinado momento “dei por mim na parte superior da plataforma da estação de S. Bento e havia carro com um canhão apontado para o quartel do Carmo e a descer da rua vinha um pelotão da GNR de capacete e achei prudente sair daquela confusão”.
José Carlos Faria falou também da pressão popular que foi determinante para a libertação dos presos políticos no Forte de Peniche.
Mário Xavier
Na altura da revolução, Mário Xavier tinha 19 anos e era do Partido Comunista, mas agora é membro do Partido Socialista. Relatou com entusiasmo as suas peripécias no 25 de abril nas Caldas da Rainha e São Martinho, onde participou na campanha do MDP-CDE.
“Depois do 25 de abril houve nas Caldas várias sessões do MDP-CDE, onde fazíamos assembleias para decidir várias coisas, como por exemplo quem ia para a Câmara. A primeira pessoa a ser indicada para presidente da Câmara foi o Jorge Sobral”, declarou. Mário Xavier recordou as várias assembleias, no Lisbonense e na Praça de Touros, revelando que foi dos melhores momentos que teve na sua vida, alertando, para a dificuldade de lutar pela liberdade.
Recordou a sua integração numa equipa de colagem de cartazes do MDP-CDE no verão de 1974 em que também estava Jorge Sobral, Helena Dias, entre outros caldenses, em que “quase apanhámos [tareia]”.
Sustentou ainda que “o 25 de abril encontra um país que tinha um terço de analfabetos, um liceu praticamente por distrito, dois milhões de emigrantes e as pessoas a viverem com ordenados de miséria”.
Manuel Isaac
Para Manuel Isaac, deputado e presidente da distrital do CDS-PP, a revolução teve um sabor diferente. Em 1974 tinha apenas catorze anos, lembrando que viveu o “medo”.
“Não consigo falar do 25 de abril sem falar do 16 de março”, sublinhou, afirmando que nessa data “o marido da minha professora foi preso e aí começou-se a sentir o medo”. Lembrou que foi sempre muito revolucionário desde miúdo.
Relatou que após o 25 de abril frequentava a Praça da Fruta, nomeadamente o Café Central, onde havia dois grandes movimentos, “o MRPP e o MDP-CDE”. “O meu primo João Isaac, que era do MRPP, estava a estudar em Lisboa e contava que andavam a colocar cartazes e muitas vezes eram perseguidos pelo Partido Comunista”, disse, acrescentando que “o que é fato é que a seguir ao 25 de abril muita gente viu o Partido Comunista como um papão como se fossem pessoas de outro mundo”. Frase que suscitou algum descontentamento de José Carlos Faria e Mário Xavier. O representante do PS chegou a acusar Manuel Isaac de estar a ser “deselegante em atacar o Partido Comunista”. “Há uma semana organizámos a semana da juventude e pela primeira vez a seguir ao 25 de abril, o CDS-PP convidou o Partido Comunista para estar presente na cerimónia”, respondeu, alegando que “não recebo críticas dessas porque não é verdade”. “Eu estou a dar os exemplos do que se passou na altura. Toda a vida me dei bem entre a esquerda e a direita e toda a vida soube distinguir amizades da política e ainda hoje o faço”, relatou.
Lamentou que não se dê valor ao 25 de abril e “não se faça um bocado de justiça por aqueles que lutaram pela nossa liberdade”, esperando que as comemorações do 25 de abril não “morram”. “Se abril abriu as portas, todos nós temos um papel a desempenhar para melhorarmos a sociedade no futuro”, vincou.
Rui Gomes
“No dia 25 de abril de 1974 estava nas Caldas a tomar banho quando ouvi na rádio que havia uma revolução”, começou por dizer Rui Gomes. Como funcionário público no Registo Civil foi trabalhar às 9 da manhã. “Havia um entusiasmo muito grande nas Caldas”, recordou, acrescentando que os cinco dias a seguir ao dia da liberdade foram os melhores da sua vida porque “havia uma vivência política nunca vivida”. “Tive a possibilidade de assistir a várias reuniões. Se não era no antigo Lisbonense era no Pinheiro Chagas”, relatou, adiantando que “naqueles cinco dias o programa da noite era assistir a essas reuniões onde estava Jorge Sobral, Almeida e Silva, Fernando Costa, entre outros caldenses e de todos havia comentários e sugestões”. Lembrou que numa das reuniões encontraram-se para preparar o 1 de maio e também saber quem eram os informadores da PIDE nas Caldas da Rainha.
A revolução deu-lhe a “liberdade de reunir, dar as minhas opiniões e ser um funcionário mais aberto”.
No final das intervenções houve alguns elementos do publico que também contaram algumas histórias suscitando uma conversa descontraída e divertida sobre o 25 de abril, como o presidente da Câmara, Tinta Ferreira, o ex-presidente, Fernando Costa, e Vítor Fernandes, dirigente do PCP nas Caldas da Rainha. Jorge Sobral, vereador do PS, recordou um conjunto de caldenses que esteve preso na altura do 25 de abril e que deu o seu contributo para que a revolução acontecesse, como Bento Lourenço da Silva, Mário Rebelo da Silva, José Augusto Pimentel, José Luís Pereira dos Santos, Teófilo de Matos, Salvador Viola, Carlos Tomás, Custódio Freitas, José António Ribeiro Lopes, Manuel Duarte, entre outros.






0 Comentários