Palavras da jornalista Maria Teixeira Alves, que esteve na passada quinta-feira à noite nas Caldas da Rainha, para apresentar o seu livro “O fim da Era Espírito Santo”, que foi lançado em novembro pela editora Alêtheia.
Na sessão que decorreu na sala do Sana Silver Coast Hotel e teve abertura a cargo de António Salvador, administrador do Grupo Medioeste (Jornal das Caldas, Região da Nazaré), Maria Teixeira Alves considerou que o grande problema que assombrou Ricardo Salgado foi o Banco de Portugal ter descoberto a dívida escondida da Espírito Santo Internacional, acrescentando que a ruína do Grupo Espírito Santo se deveu sobretudo à “ambição” do seu líder, de manter o grupo dentro da família. “Os esquemas financeiros para cumprir esse objetivo acabaram por levar o império à ruína”, sustentou.
Zita Seabra, responsável pela editora da Alêtheia, destacou a obra da jornalista, que “é especialista em banca e tem a vantagem de escrever para o grande público numa linguagem mais simples, tornando o livro apelativo à leitura”. Agradeceu ao JORNAL DAS CALDAS a iniciativa para este evento de apresentação de um livro cujo tema está na atualidade.
Francisco Gomes, chefe de redação do JORNAL DAS CALDAS, moderou a apresentação, lançando algumas questões que suscitou um debate interessante onde o público interveio sobre o tema. Carlos Gaspar, um dos elementos do público que foi colega de escola de Ricardo Salgado, revelou algumas características do ex-presidente do grupo BES.
As declarações de Ricardo Salgado e de outros elementos que faziam parte da administração do BES na comissão parlamentar de inquérito também foram comentadas nesta sessão.
“O fim da Era Espírito Santo” é, segundo a autora, um encadeamento de fatos contados em forma de romance com personagens reais. O livro não é técnico e com uma linguagem simples “procura ser o retrato irónico de uma sociedade que vive fascinada pelo poder sobre alguém e onde se formam alianças estratégias, informais, com a finalidade de manter o status quo”.
No evento a jornalista citou uma parte do prefácio onde diz que Ricardo Salgado “é o banqueiro da época da fénix renascida das grandes famílias que foram exiladas pela revolução do 25 de abril de 1974, e pela vertente de revolução do proletariado em que se converte o PREC de 1975”.
“O Banco Espírito Santo era o último bastião dessa burguesia financeira endinheirada, glamorosa no Estado Novo e que embasbacava o comum dos homens, que lhe prestava voluntariamente vassalagem. A certa altura parecia conjugarem-se todas as forças da sociedade para certificar que o presidente do BES passasse a ser face do poder supremo, o rei sol, e o banqueiro entranhou esse poder. O poder sobre os outros é uma tentação fácil de entranhar. Mas de algum modo sabia que esse poder acabaria com o fim dos grupos familiares. Lutou até ao fim para manter essa realidade, até que esse crescimento começava a exigir dinheiro e começando a faltar dinheiro, o banqueiro não teve outra saída senão o crédito”, referiu.
“Não é de hoje a maravilhosa aliança entre dívida e poder. Pensava talvez que a importância do Grupo e do Banco Espírito Santo era um seguro contra a impiedosa atuação dos reguladores. Enganou-se”, adiantou.
Para Maria Teixeira Alves, desde logo quando o Banco de Portugal teve o resultado da auditoria e se apercebeu da situação patrimonial muito grave da Espírito Santo Internacional, “devia imediatamente ter imposto a saída de Ricardo Salgado e da sua administração executiva, devia ter precipitado os mecanismos legais que lhe reforçassem os poderes para o fazer”. “Estávamos em novembro de 2013. Não o fez, arrastou a situação e deixou quem dominava o grupo a tentar resolver as dívidas da Espirito Santo Internacional, com mais dívida nas contas dos clientes, alguns sem saber, e outros sem terem dado autorização”.
A jornalista falava da “gestão discricionária de carteiras onde houve descarados abusos de confiança e conflito declarado de interesses quando encharcaram as carteiras dos clientes, em Portugal e fora de Portugal, mas à mesma Espírito Santo, com papel comercial da Espírito Santo Internacional e da Rioforte”.
A jornalista diz que ainda há muito para escrever sobre o tema, até porque “ainda há muitas questões para responder como – Para onde foram os milhões do BES Angola, a custas do BES, porque era este que subsidiava o crédito que o banco angolano dera alguém? ou Quem era a pessoa mistério que recebeu parte da comissão dos submarinos? Ou ainda o que eram os 14 milhões de dólares que o empreiteiro deu a Ricardo Salgado?”.






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