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Sessão solene do 25 de abril com pouca afluência

Marlene Sousa

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Foi com críticas à desvalorização do poder local que o presidente da Câmara Municipal das Caldas iniciou o seu discurso na sessão solene dos 40 anos do 25 de Abril, que decorreu na passada sexta-feira, nos Paços do Concelho
Sessão com comunicação do presidente da Câmara e do historiador Bonifácio Serra

“O peso do município é maior do que era antes do 25 de abril, mas o poder local não tem hoje o mesmo peso na sociedade do que tinha, por exemplo, há vinte anos atrás”, disse o edil. Tinta Ferreira desafiou os autarcas e as pessoas que acreditam nas virtualidades do poder a “juntarem esforços, para que haja mais autonomia do poder local sem o controle e as amarras que estão sujeitos em termos de fiscalização que limita a capacidade dos políticos locais no desenvolvimento da comunidade”.

Recordou que uma das conquistas do 25 de abril foi a autonomia das autarquias, lamentando que com a entrada da Troika, “exista hoje claramente uma diminuição da capacidade de intervenção dos municípios e a desvalorização permanente do poder municipal”.

O autarca defendeu ainda a necessidade de prosseguir com determinação a luta pela defesa das conquistas da Revolução, nomeadamente a democracia partidária. “O pior que podemos fazer é continuar esta escalada que tem ocorrido sobre a desconfiança permanente da capacidade dos políticos em prestar adequadamente um serviço nobre”, sublinhou, acrescentando que “compete-nos a todos valorizar a ação política sem colocarmos em causa o que é verdadeiramente o 25 de abril, que hoje vive-se num contexto de crise”.

“Estava a vestir a bata para ir para a escola, no Bairro da Ponte”, respondeu, Tinta Ferreira, à questão onde estava no 25 de abril de 1974. O autarca tinha nove anos e frequentava o 4º ano quando se deu a revolução dos cravos. O presidente da Câmara lembrou que “metade da população de hoje não viveu e não sentiu o que foi o 25 de abril e muito menos sabe como se vivia antes dessa data”, pelo que a função das comemorações da revolução nas Caldas “é transmitir à nova geração o que foi o 25 de abril e manter viva a chama da luta pela liberdade e os valores que foram transmitidos”.

Democracia enfrenta crise

Esta sessão solene evocativa do 25 de abril teve a participação do historiador João Bonifácio Serra, que referiu alguns processos de mudança social, cultural e política, que não envolveram apenas Portugal mas que contribuíram para o 25 de Abril. “Os fatores económicos decisivos para abertura do país ao exterior, a necessidade da modernização do país, a entrada de Portugal nas rotas turísticas internacionais, o surto de emigração portuguesa para a Europa”, foram algumas mudanças apontadas pelo historiador.

Segundo Bonifácio Serra, 1969 foi um ano crucial para a história do Estado Novo, com repercussões que se fizeram sentir até à Revolução de 25 de Abril de 1974. “Marcelo prometeu eleições para esse ano. E enquanto enfrentava a “ciclópica” (o termo é dele) tarefa de constituir e consolidar as bases do seu programa reformista, em Portugal e nas colónias (que visitou em abril, desse modo marcando a diferença relativamente ao seu antecessor que nunca viajara até África), multiplicavam-se as frentes de oposição social e político autoritarismo”, referiu, acrescentando que “estes confrontos funcionaram como teste à genuinidade da abertura política prometida e sublinharam, implicitamente, que uma transição para a democracia não podia ser realizada nem contra nem à margem da oposição” e assim “mobilizaram-se católicos, estudantes, sindicalistas, intelectuais e jornalistas, homens e mulheres, em Portugal e no exterior”.

Fazendo um balanço do 40 anos após revolução dos cravos, Bonifácio Serra disse que a democracia enfrenta hoje uma crise que “muitos consideram a mais dura e profunda da nossa contemporaneidade”. “Essa crise não é exclusivamente portuguesa e em boa parte remete para uma globalização a que não poderíamos escapar”, sublinhou.

Para o historiador, esta crise abalou a confiança dos cidadãos nas instituições e na política. “A crise da democracia operou, como sempre sucede nestas situações, como causa e como efeito, mas não é certamente ao 25 de Abril que temos de voltar para aí encontrar qualquer tipo de justificativo ou lenitivo para situação que vivemos quatro décadas mais tarde”, apontou.

Mas talvez, segundo este responsável, possamos buscar e encontrar nele, “uma inspiração, um sopro vital ou uma aspiração”. “Os povos precisam desses dias fundadores, nas esquinas da sua história, para poderem continuar a sonhar e a ousar os mitos. O 25 de abril também se revestiu de mito – o mito do heroísmo jovem, dos nossos rapazes comandados por capitães de 29 anos que tomaram as cidades com dignidade, eficácia e legitimidade – tem esse papel na história: são uma reserva de energia e imaginário coletivos e, portanto, de futuro”, concluiu Bonifácio Serra.

Apesar da programação ser “virada para os jovens”, a sessão solene evocativa do 25 de Abril teve pouca adesão do público caldense, nomeadamente dos mais novos.

Marlene Sousa

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