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Serviço de Gastrenterologia do hospital das Caldas tem sido referência nacional

Francisco Gomes

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O 31º aniversário do Serviço de Gastrenterologia do hospital das Caldas da Rainha foi assinalado no passado dia 17, tendo sido descerrada na unidade de endoscopia uma placa com o nome do fundador do serviço, Vasco Trancoso, que foi administrador da unidade de saúde.
Carlos Sá, Vasco Trancoso e António Curado

A cerimónia realizou-se com a presença de Vasco Trancoso, do médico António Curado e do presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Oeste, Carlos Sá.

“Interpreto este gesto simbólico como um desejo de evocar algo mais do que simplesmente e apenas o nome de quem fundou um Serviço, em que se procurou sempre alcançar um verdadeiro espírito de equipa, quase “familiar”, em que o respeito e a estima eram muito relevantes, e a exigência e o entusiasmo pela atividade uma bandeira, e trouxe frutos muito importantes”, manifestou Vasco Trancoso.

Em setembro de 1983 foi atribuído a este Serviço, pela Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia – o 1º Prémio Nacional de Investigação Clínica “Gaster” (com a oferta de um endoscópio pediátrico ao Serviço).

“Durante 1984, ao mesmo tempo que foi publicado no “American Journal of Gastroenterology” um artigo do Serviço com um caso clínico, desencadearam-se medidas junto da Comissão Regional dos Internatos para dotar os hospitais distritais com internos nas valências com capacidade formativa. As gerações de internos que ingressaram nos hospitais distritais durante essa década de 1980 acabaram por ser fundamentais, pois são elas que asseguram o atual funcionamento de muitos dos atuais Serviços de nível distrital”, recordou.

Foi também neste Serviço, em 29 de novembro de 1984, que se tomou a iniciativa de fundar o Núcleo de Gastrenterologia dos Hospitais Distritais. Esta Associação que, em 1992, dispunha do maior banco de dados de endoscopia da Europa – engloba hoje todos os Serviços de Gastrenterologia dos Hospitais Distritais. “Esses momentos fundadores, que tiveram lugar entre junho e novembro de 1984, determinaram mudanças fundamentais no panorama nacional da Gastrenterologia – como viria a ser reconhecido, mais tarde, durante Reunião Nacional, em Coimbra, pelo professor Gouveia Monteiro – aquando de uma sua comunicação sobre a história da valência em Portugal. A Gastrenterologia nos Hospitais Distritais nunca mais pararia de se desenvolver e percorrer um caminho muito bonito – onde o empenho e a criatividade de todos os colegas tornaram o nosso sonho realidade”, frisou Vasco Trancoso.

Em 1986 foi ganha uma bolsa da Fundação Gulbenkian no valor de quinze mil euros para material endoscópico, o que “muito ajudou a diferenciar o Serviço, que foi e é um dos mais considerados e de referência a nível Distrital”, sustentou, adiantando que “recebemos a visita de um diretor de serviço de um Hospital Central que veio colher informação sobre o modo como este Serviço conseguia uma taxa tão elevada de deteção de cancro em início do esófago”.

“Recordo ainda que, foi deste Serviço que partiu uma proposta (dirigida ao antigo Departamento de Gestão Financeira dos Serviços de Saúde) para se iniciar a execução de tabelas de ponderação das técnicas Gastrenterológicas – que viria a ter a concordância do Ministério da Saúde – cuja execução teve início, em 1988, com um painel de especialistas na qual o nosso Serviço estava representado (aliás, esta representação teve continuidade mais tarde com a presença do atual diretor de serviço)”, referiu Vasco Trancoso.

Em 1997 foi recebido, através da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva, o 1º Prémio Nacional anual de Fotografia Endoscópica.

“Sendo a atividade formativa uma das preocupações do Serviço – procurando assegurar no futuro a continuidade da qualidade assistencial – foi com natural satisfação que recebemos, em 1986, um novo interno, que se mostrou aplicado, permitindo que se exercessem plenamente as capacidades de ensino e acabando por realizar o exame final do Internato e da Ordem dos Médicos com excelentes classificações. Desde 1991 foi o outro especialista no Serviço participando também na atividade formativa de três novos internos que o Serviço acolheu e formou, propiciando a existência de quase uma “escola própria” nas Caldas com um Serviço sem especialistas vindos de outros Hospitais e sem ligações “umbilicais” com a instituição”, descreveu.

Completou-se um ciclo quando no início das suas funções como direto clínico (em 1997) e depois como presidente do conselho de administração (em 1999), Vasco Trancoso passou o testemunho a António Curado.

Para o ex-responsável do Serviço, a qualidade “dependerá não só de atuais medidas de consolidação, mas também de quem um dia virá a dirigi-lo”. Assim, “será importante a salvaguarda das carreiras médicas e o estabelecimento de uma hierarquia solidamente assente – sendo para tal essencial, no imediato, o preenchimento da vaga de Chefe de Serviço que deixei em aberto bem como a consequente existência de novos elementos (quiçá alguns internos) que garantam, no futuro, a continuidade da tradicional qualidade do Serviço”.

Deixando um reconhecimento a todos os funcionários que trabalharam no Serviço de Gastrenterologia, acabou por lembrar com nostalgia os “tempos da clínica sempre ao lado do doente. Clínica dos olhos no doente em vez da clínica de olhos no computador. Medicina de ouvir e observar o doente em vez de sobretudo ler relatórios de exames complementares. Tempos de um grande saber, mérito, dedicação, respeito e compaixão em vez da atenção focada de um modo excessivo na ”eficiência”, nas estatísticas, na produtividade e sobretudo no economicismo”.

E acabou por desabafar: “Sinto saudade de um tempo em que as decisões sobre os doentes eram inspiradas por uma verdadeira clínica também atenta às suas angústias, às dúvidas e não só aos sinais e sintomas. Assisti muitas vezes a diagnósticos e decisões certas sem o auxílio sequer de uma análise. Saudade de uma medicina em que o médico era o amigo e conselheiro e onde imperava o rigor – independente de grupos económicos ou políticos (muitos dos grandes mestres da medicina foram, não por acaso, muitas vezes perseguidos). Sinto que hoje se fala pouco tempo com o doente – porque a quantidade parece mais importante – e quantas vezes não se repara que o doente está a repetir o mesmo fármaco ou a tomar medicamentos desnecessários ou antagónicos. saudade de uma medicina com tempo – sobretudo para o doente e de ensinar a ensinar os mais novos na arte de fazer medicina – consoante este “espírito”.

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