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Visita a instituições europeias para preparar rota histórica no Oeste

Marlene Sousa

EXCLUSIVO

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No início do século XIX Portugal foi palco de uma das mais ofensivas militares de que há memória. As invasões francesas deixaram marcas nos locais e alteraram alguns modos de vida. Mais de dois séculos depois diversas entidades oestinas querem reavivar essa memória e propõem-se a trabalhar em conjunto para o fazer. A Rota Histórica das Linhas de Torres, que integra os municípios de Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço e Vila Franca de Xira, já tem trabalho feito e a LeaderOeste junta-se agora ao projeto, que precisa de apoios europeus para a sua concretização.
A comitiva oestina em Bruxelas

O Centro de Informação Europe Direct Oeste (CIED Oeste) reuniu um grupo de autarcas, técnicos da Rota Histórica das Linhas de Torres, representantes de organizações locais, jornalistas e agentes culturais e turísticos, no total de 25 participantes, para uma viagem de três dias a Bruxelas.

A comitiva conheceu as instituições europeias e falou com diversas entidades responsáveis pelo Programa Europa Criativa e também pela REPER (Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia), com intuito de conhecer melhor o trabalho das instituições europeias e conseguir fundos europeus para futuros projetos.

O objetivo foi trazer para o Oeste informações úteis para os municípios elaborarem uma candidatura no próximo quadro comunitário ao Programa Europa Criativa.

No primeiro dia a comitiva dirigiu-se a Waterloo, a cerca de 20 km da capital belga para uma visita ao campo de batalha e respetivo centro de interpretação.

Waterloo tem 29 mil habitantes. A sua atração é o campo onde Napoleão perdeu a última batalha. O local reproduz exatamente o dia 18 de junho de 1815, quando as tropas do duque de Wellington mudaram para sempre a história da França e do resto da Europa.

Esta batalha colocou frente a frente as forças francesas de Napoleão Bonaparte e a coligação dos exércitos britânico, russo, prussiano e austríaco, comandada pelo Duque de Wellington, e cuja derrota do imperador francês foi decisiva para o final do seu império.

Neste local está erguido um monte verde construído com terra do próprio terreno da batalha e uma estátua de um leão em ferro fundido no cimo. Trata-se da Colina do Leão, um monumento comemorativo da batalha.

A comitiva pôde visitar uma sala com um século de existência com uma pintura panorâmica de 360 graus da batalha e ainda assistir a dois filmes da reconstituição da mesma batalha.

Ver como esta pequena cidade de Waterloo se promove a nível turístico, e como este exemplo pode ser aproveitado para a criação do projeto regional no Oeste – a Rota Histórica das Linhas de Torres foi um dos objetivos da visita organizada pelo CIED Oeste. A visita no primeiro dia de viagem permitiu à comitiva ver alguns bons exemplos.

Ana Umbelino, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras, considera que a visita a Bruxelas foi muito importante “pelos contactos que foram estabelecidos pela LeaderOeste e por estreitarmos relações no sentido de podermos criar a nível regional uma conexão entre os municípios, associações que estão empenhadas em promover a batalha do Vimeiro e da Roliça, dois acontecimentos fundamentais ao nível da primeira invasão, com as Linhas de Torres Vedras, que foram determinantes aquando da terceira invasão e que marcaram, no fundo, o fecho de um ciclo e a saída dos franceses de Portugal”.

Para a autarca foi fundamental realizar esta visita para “estreitar relações, perceber as intenções de uns e outros e creio para o projeto das Linhas de Torres Vedras tem um potencial ainda maior do que Waterloo, na medida em que é um património que está disperso por um território mais vasto e que pode agregar outros produtos como o vinho e a gastronomia, que permitem ao turista ter uma experiância de visitação mais ampla, mais vasta e diversificada”.

Waterloo é um modelo que a vereadora considera importante seguir, na medida em que é uma rede “polinucleada, apoiada em centros de interpretação e estruturas complementares que engrandecem a experiência do turista e do visitante”.

Financiamento europeu para futuros projetos

Em Bruxelas, os vários responsáveis tentaram compreender quais os programas de financiamento que no âmbito do novo quadro económico poderão ajudar a concretizar o projeto regional sobre as Guerras Peninsulares.

No segundo dia da viagem, a comitiva dirigiu-se ao Edifício Berlaymont, a sede da Comissão Europeia em Bruxelas, onde assistiram a apresentações de programas e serviços como Europa Criativa, Erasmus Mais e o serviço audiovisual, Europe By Satelite.

O programa “Europa Criativa” – 2014-2020 dará um novo um impulso extremamente necessário para as indústrias culturais e criativas, que são uma importante fonte de postos de trabalho e de crescimento na Europa. O novo programa, que assenta na cooperação entre vários países, deverá afetar mais de 900 milhões de euros de apoio ao cinema e ao setor audiovisual (área abrangida pelo atual Programa MEDIA) e quase 500 milhões de euros à cultura. A Comissão propõe igualmente a afetação de mais de 210 milhões de euros a um novo mecanismo de garantia financeira, que poderá permitir o acesso por parte de pequenos operadores a empréstimos bancários até ao montante de 1000 milhões de euros, bem como a afetação de cerca de 60 milhões de euros ao reforço da cooperação política e ao fomento de abordagens inovadoras para a constituição de audiências e novos modelos comerciais.

“Tenho esperança que vamos fazer um projeto integrado que possa ir até além-fronteiras, pois o motivo que nos trouxe aqui fez história em muitos países da Europa”, disse o presidente da Câmara do Bombarral e da LeaderOeste, José Manuel Vieira. O autarca acredita que reunirão os pares nacionais para criar um cluster mais forte.

Balanço positivo

“O balanço é extremamente positivo. Levamos na bagagem muita expetativa relativamente àquilo que vimos com os nossos próprios olhos e refiro-me à parte histórica que está relacionada com o que nos trouxe aqui, as invasões francesas”, disse o presidente da LeaderOeste no final da viagem. O responsável pelo Município do Bombarral acredita que é possível “continuar a sonhar com um projeto integrado que envolva as Linhas de Torres, as batalha da Roliça e do Vimeiro e tudo o que ao Oeste e mais a sul diz respeito, agindo naturalmente com as ferramentas da União Europeia”.

José Manuel Vieira recordou que em Waterloo “vimos um centro interpretativo muito simples mas muito completo e elucidativo e é esse o exemplo que devemos levar para Portugal em termos da conceção e construção do que serão os imóveis que irão acolher os nossos projetos”.

O autarca adiantou ainda que há muito interesse das pessoas de fora pela temática das Guerras Peninsulares. O centro de interpretação da Batalha do Vimeiro serve de exemplo. “É simples e consegue mostrar o que se quer transmitir”, explicou, acrescentando que irão optar por uma construção ainda mais rústica, utilizando a pedra por ser um local rural.

Também os representantes do Centro de Informação Europe Direct Oeste fizeram um balanço positivo da iniciativa. “O objetivo da visita foi totalmente cumprido. Da visita à Comissão Europeia, Parlamento Europeu e ainda o Parlamentarium trouxemos informações preciosas sobre os programas, agora já em vigor, do próximo quadro comunitário”.

Segundo declarações do CIED Oeste, “conseguimos juntar os intervenientes da Rota Histórica das Linhas de Torres com as Câmaras de Lourinhã, Bombarral e Óbidos, também interessados e intervenientes na temática, levá-los a conhecer Waterloo, um dos principais pontos turísticos e históricos da temática das Invasões Francesas e também reuni-los à mesa para, de futuro, trabalharem em conjunto, se assim o desejarem”.

Depois desta viagem a Bruxelas, segundo esta organização, houve uma reunião com todos os intervenientes da Rota Histórica das Linhas de Torres e com a participação da LeaderOeste e também das Câmaras de Bombarral, Lourinhã e Óbidos (para além dos 6 municípios que integram a Rota) “mas não houve desenvolvimentos nem decisões tomadas”.

A temática será enquadrada na ELD (Estratégia Local de Desenvolvimento) do próximo PDR (Programa de Desenvolvimento Rural) na área cultural e patrimonial.

Visita às instituições europeias

A comitiva oestina foi conhecer a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e ainda o Parlamentarium. O grupo reuniu-se com os responsáveis da REPER, que explicaram à comitiva as novidades da reforma da PAC (Política Agrícola Comum). Segundo Luís Caiano, natural de Torres Vedras e que atualmente exerce funções na REPER, a reforma da PAC é positiva para Portugal, que irá receber 8,1 milhões de euros (2014-2020).

No edifício Berlaymont houve tempo para trocar umas palavras com Leonor Ribeiro, porta-voz do presidente da comissão, Durão Barroso, que guiou a visita pelo 13º piso do edifício, onde está localizado o gabinete do presidente e onde são recebidas as altas entidades que se deslocam a esta instituição. A porta-voz de Durão Barroso destacou a importância destas visitas, na medida em que “o conhecimento permite destruir os preconceitos e ajuda a ter uma maior compreensão da causa europeia e do que se faz aqui pela Europa”.

Leonor Ribeiro explicou que a União Europeia é uma organização complexa com três instituições diferentes: um conselho, uma comissão e um parlamento.

Esta responsável gostava que Portugal tivesse uma maior compreensão do que é Bruxelas, e por isso fica “contente que venham cá grupos de portugueses para perceberem melhor o que se faz”.

Compreende que Portugal está a passar grandes dificuldades, mas garante o presidente da comissão “está muito atento ao que se passa em Portugal e a fazer os possíveis para que o futuro seja melhor”.

Em declarações ao JORNAL DAS CALDAS, Margarida Marques, da direção geral da educação e cultura, destacou a importância da imprensa regional para que a população portuguesa fique a conhecer um pouco melhor a União Europeia. Segundo esta responsável, “a imprensa regional chega mais junto dos cidadãos, portanto o trabalho é fundamental para que os cidadãos possam perceber qual o seu papel na União Europeia, quais os seus direitos, o que podem fazer e como podem agir”.

Para Margarida Marques, uma vez que vai haver eleições europeias em maio de 2014, é importante divulgar à população a importância destas eleições, porque é uma forma dos cidadãos escolherem os “seus representantes que votam no processo de decisão ao nível da união europeia”.

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