“Eleições e Caciquismo no Portugal Oitocentista (1868-1890)” de Pedro Tavares de Almeida e “Cidadania, Caciquismo e Poder (1890-1916)” de Luís Vidigal, são duas obras que descrevem o comportamento político de tipo clientelista-caciquista à época, afirmando o primeiro que, apesar de o liberalismo “ter trazido consigo o princípio da soberania da nação e dos mecanismos do governo representativo”, as elites governantes consideravam as eleições “um instrumento de manipulação de jogos de poder”. A “invenção da cidadania”, em que se reconhecia aos membros iguais de uma nação o direito de governar através dos seus representantes livremente eleitos, era utilizada pelas elites como “antídoto contra o descontentamento e o activismo revolucionário, e como estratégia de integração nacional e da autoridade territorial do Estado”.
É neste contexto que se assiste a “manifestações de fraude, corrupção, dominação dos notáveis, clientelismo na mobilização e controlo do voto, e uma intromissão abusiva do governo nas eleições”, podendo concluir-se que a “cidadania” não passava de uma mera ficção jurídica e ideológica. Era o “cacique proprietário” que, dada a sua “posição económica favorável, pergaminho familiar, prestígio profissional, cultural e simbólico, mobilizava os votos e consagrava as fidelidades”, tendo posteriormente emergido, com o alargamento da máquina eleitoral ao interior do país, o “cacique burocrático”, bem posicionado no aparelho do Estado e vocacionado para assegurar a ordem pública, “com base numa vasta rede de lealdades e favores, submissão e ameaças de coacção”.
Em ano de eleições autárquicas, é tempo de passar da ficção à realidade, de perceber que só uma verdadeira cidadania tirará o país da miséria, de exigir um novo quadro legal que impeça o vicioso carreirismo-caciquismo e promova a ética e o mérito político. É tempo, em suma, de os dirigentes políticos optarem por ser líderes e não patrões ou amos, e de as pessoas perderem o medo, endireitarem a espinha e levantarem o queixo, assumindo-se como cidadãos de corpo inteiro.



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