O caso passou-se a 26 de março deste ano, no interior do café Pituca Lux, junto à Fonte Luminosa, próximo onde o casal tinha morado até nove dias antes, quando Mónica Carvalho colocou fim à relação com Jaime Oliveira, de 39 anos, com quem vivia em comunhão de facto há vinte anos.
Já tinha havido uma separação anterior, mas, segundo Mónica Carvalho, na outra altura “ele procurou-me dizendo que ia mudar, que íamos começar uma vida nova e que se eu não voltasse para ele que me tirava a minha filha, que na altura tinha três anos e que agora tem quinze. Fiquei com medo e decidi voltar para ele”.
Alegando que ao longo da relação foi alvo de “maus tratos”, resolveu abandonar de vez Jaime Oliveira. O servente de pedreiro não aceitou a separação. Ao ver na rua a ex-companheira, que ia frequentar duas aulas de condução para ir a exame no dia seguinte, foi ao seu encontro no café, onde estava com o novo companheiro, que tinha sido amigo de Jaime Oliveira até à altura em que descobriu que há vários anos, numa altura em que o casal estaria separado, Mónica Carvalho tinha tido um relacionamento com ele.
“Fiquei logo nervosa. Sabia que ele ia dirigir-se a mim para fazer espetáculo. Começou a chamar-me nomes e a insultar-me. Entrou e saiu várias vezes e pediu-me para assinar uma declaração de venda de um carro que estava em meu nome. Eu disse que assinava sem problemas”, relatou Mónica Carvalho.
Contudo, adiantou, “ele disse ‘deixa estar’, porque para o que ele ia fazer não era preciso eu assinar nada e que nunca mais ia comer pão, e saiu. Fiquei apavorada e liguei para a minha irmã que disse que estava mesmo a chegar com o marido dela”.
Jaime Oliveira foi a casa, a poucos minutos de distância, buscar a caçadeira carregada com dois cartuchos, que levava tapada com um blusão, com a manga presa no gatilho. O arguido sustentou que não ameaçou a ex-companheira e que não apontou a arma e apenas pretendia causar um susto, reconhecendo que “não estava em mim”. Mas, “não tinha ideia de mandar um tiro a ninguém”, disse, alegando que a caçadeira disparou-se “acidentalmente” na altura em que o cunhado de Mónica Carvalho terá tentado desviar a arma, ao vê-lo na direção da vítima, que não tem dúvida de que a intenção era matá-la.
Enquanto o servente de pedreiro era imobilizado e posteriormente detido, a ex-companheira era levada para o hospital. Ficou internada mais de dois meses e teve de ser submetida a sete cirurgias. Tem ainda uma reconstituição estética prevista. “Tenho muita vergonha de estar ao pé das pessoas porque noto como me olham”, confessou, pedindo uma indemnização superior a 20 mil euros.
Durante o julgamento, Mónica Carvalho contou que, mesmo estando preso, o arguido lhe terá telefonado a dizer que quando saísse da cadeia iria cumprir as ameaças de morte sobre ela e o novo companheiro, revelando que, por causa disso, tem pesadelos e receia sair à rua sozinha. Por ter prestado declarações em primeiro lugar, Jaime Oliveira não teve ainda oportunidade de se pronunciar sobre esta acusação.
O homem, acusado de homicídio qualificado na forma tentada e de detenção de arma proibida, admitiu ter comprado a arma “na candonga” (de forma ilegal) em Rio Maior. Em sua casa foram apreendidas mais de duzentas munições de calibre 12 e 22.
A audiência prossegue em janeiro.
Francisco Gomes




0 Comentários