Quando visitamos a vila da Nazaré e se atentarmos a um diálogo entre dois indivíduos dessa comunidade, iremos constatar certas distinções no sistema de comunicação apesar de partilharem a mesma língua que o visitante da sua terra.
A primeira distinção óbvia que o visitante consegue apurar é da articulação da palavra aliado com o sotaque nazareno: “Tá mêa praia alvantada” (Está meia praia levantada); “Xá andá’p’ò sul” (Deixa andar para o sul). Se aprofundarmos o diálogo entre dois nazarenos a nossa condição de visitante começa a ficar mais assente quando começamos a ficar distanciados da compreensão do diálogo entre os conterrâneos.
Léxicos, expressões e referências a pequenas estórias sucedidas na vila complexificam a interpretação do diálogo: “Picnin” (pequeno) “Stinêta” (criança inquieta) “Alborques” (intrigas); “Tá même jêts de rabiosa” (diz – se quando o mar começa a ficar bravo) “Cu de poita” (diz – se que o rabo é grande) “Arr’ chiça e contra chiça lá pa trás” (diz – se para negar uma difamação); “Já tás a variá’ c’m’à menhé do Trecat” (referência à esposa de um individuo chamado Trecat que cometeu adultério e pediu – lhe perdão do seguinte modo: “perdoa – m’ homem qu’eu varie”, usa-se a expressão referida quando subitamente uma pessoa muda de ideias).
O nazareno torna-se o senhor do mundo interpondo, entre o mundo e ele, uma rede de palavras. Essa rede é a língua, que, à imagem de uma rede lançada sobre a realidade das coisas, conserva nas suas malhas simbólicas uma realidade que decompõe, que organiza, e da qual toma posse. Na condição de visitante da vila da Nazaré apreendo que na Nazaré fala o nazareno e o visitante cala – se para ouvir e aprender. Apesar de ouvirmos a mesma língua através das plataformas mediáticas, os dialetos locais como o nazareno estão a ficar cada vez mais enraizados nas culturas regionais solidificando a distinção micro cultural.
Para finalizar aqui fica exposto um poema de Fernando Pessoa, Mar Português, transcrito em nazareno”:
Mar Português
Ai mar salgad, q’ant’ d’ tê sal
San lágrimas d’ Portugal!
Po’ t’ cruzarmos, q’antas mães choraram,
Q’ants filhos im van rezaram!
Q’antas noivas ficaram po’ casar
P’ra qui fosses nosso, ai mar!
Valeu a pena? Tud’ val’ a pena
Si a alma nã é picnina.
Quem quer passar além do Bojador
Tem qui passar além da dor.
Deus ‘o mar o prig’ e o abismo deu,
Mas nele é qui espelhou o céu.



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