Quando o meu sobrinho mais novo nasceu, em 2009, os jardim de infância e as creches, bem como ATL’s (nova possibilidade do séc. XXI para pais trabalhadores terem oportunidade de garantirem ambos sustento da casa e progressão nas suas carreiras) abriam às 8h00/9h00 e fechavam, mais tardar, às 19h30. No “tempo dele” (do meu sobrinho) não abriam aos fins de semana e feriados.
A minha geração já tem filhos e já lhes garante um lugar: pagando de acordo com os seus rendimentos numa IPSS; nos jardins de infância públicos (a conseguirem uma vaga) e, por felizmente conseguirem, em colégios privados. Da minha geração existem (e sem referir as profissões liberais que gerem os seus próprios horários): funcionários públicos (aí o horário mantém-se); empregados das mais diversas áreas em lojas dos centros comerciais (que fecham, regra geral, às 23h/00h00, já sem contar com horas de limpeza e inventários); funcionários das grandes superfícies, que além de também fecharem tarde funcionam 7 dias por semana e feriados; funcionários de lares de idosos que trabalham em horários com turnos rotativos nas 24h do dia e tantas outras profissões que, de resto, se encaixam em qualquer um destes horários.
Sim. Mudaram-se os tempos. As mulheres são cada vez menos “donas de casa” e têm uma carreira tão ou mais importante que a dos seus maridos para gerir. Por outro lado, garantem também elas, como eles, o sustento da família.
A minha questão é: se mudaram os tempos porque é que não se mudaram as vontades: Política, de adotar a oferta pública às necessidades reais das famílias que são, de resto, o motor de crescimento económico da sociedade; Social, de reconhecer que é cada vez mais difícil ter a mãe, a avó ou a vizinha de confiança em casa para tomar conta das crianças em horário pós-laboral, que de pós-laboral já não tem quase nada (após as 19h portanto), e aos fins de semana e que, por isso mesmo, potenciam crescimento demasiado “independente” das crianças, na minha opinião; e Humano, porque se “estamos em crise” é de valores já que o desenvolvimento individual ignora o desenvolvimento coletivo. Mudamos mas não moldamos os nossos pilares de convivência em sociedade e, dessa forma, continuaremos neste ciclo vicioso de vou-poupar-até-cair-para-o-lado-de-fraqueza a vou-gastar-o-que-tenho-e-o-que-não-tenho-para-me-sentir-seguro-com-tudo-aquilo-que-consigo-consumir-e-adquirir.
Ainda não tenho filhos mas estou certa de que, infelizmente, quando os tiver terei que recorrer, já com menos facilidade, aos avós e aos amigos (que já nem é tão fácil de estarem também eles disponíveis) quando eu e o pai estivermos a trabalhar à noite e ao fim de semana. Mudaram os tempos, pois mudem as vontades, empreguem mais pessoas e garantam que também os horários dos jardim de infância, creches e ATL’s estejam disponíveis nos novos ritmos a que a sociedade já há muito se habituou – de forma equilibrada, proporcional e bem gerida, claro. Considero o debate relevante e particularmente urgente.



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