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Elogio a Guimarães

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Trata-se de uma cidade que valoriza o património comum. Produto da história, o património é em primeiro lugar uma soma: de criações inscritas no tempo, de olhares aplicados por gerações, de narrativas sucessivamente imaginadas e sobrepostas. O património comum é o resultado de uma cumplicidade, não só com o passado, mas também com o futuro. […]

Trata-se de uma cidade que valoriza o património comum. Produto da história, o património é em primeiro lugar uma soma: de criações inscritas no tempo, de olhares aplicados por gerações, de narrativas sucessivamente imaginadas e sobrepostas. O património comum é o resultado de uma cumplicidade, não só com o passado, mas também com o futuro. Sem o património comum, a cidade estaria condenada a começar sempre tudo de novo, a inventar do nada. Compreender o legado para poder transformar, dialogar com a diversidade das heranças é a condição fundamental para assegurar a mudança, a metamorfose, no sentido que lhe empresta Edgar Morin (a metamorfose é uma transformação que se articula com a conservação: da vida, da herança cultural). O património comum revela, em Guimarães, um impulso regenerador. A cidade combina as representações do seu papel na construção de uma autonomia política precoce, com as marcas de uma ocupação, conduzida por unidades de produção industrial e pela tecnologia, de um território rasgado por cursos de água. Perscrutar esta história é destacar a incidência dos processos da inovação ao longo dos últimos dois séculos e sondar o campo das possibilidades do futuro. Se o tempo traz destruição, é esta que impele a reconstrução, que convoca a inovação. O património comum compromete o cidadão e revigora a cidadania. Porque garante a liberdade de criar, que como se sabe nem vive no caos nem sobrevive sob o autoritarismo. O sentido da identidade é pertença e é partilha, e esta só se cumpre plenamente na dimensão do espaço público, de uso coletivo e democrático. Guimarães 2012 propõe um programa cultural assente nesta cidade, lida desta forma. Esse programa não constitui uma nova narrativa, mas um ensaio sobre a narrativa disponibilizada pela cidade, descobrindo as linhas de que se tece e submetendo-as à tensão do projeto de criação em contexto, da residência artística, do confronto das visões e tendências contemporâneas. João Serra

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