O Papa foi, há alguns dias, à Galiza e à Catalunha visitar aquela que foi, durante séculos, a coluna vertebral da defesa da Europa e do Catolicismo Romano: Espanha. Porém, esse país que, desde os Reis Católicos, Isabel I e Fernando V, do Século XV e XVI ao “Caudilho pela Graça de Deus”, Francisco Franco, sempre foi um dos grandes, se não mesmo o principal, baluarte da Igreja a Ocidente, parece ter perdido, de forma mais ou menos irremediável, o sentimento de pertença à tradição religiosa europeia que sempre lhe foi inerente. De facto, como, aliás, tem sucedido no resto do Velho Continente, o país com o qual Portugal faz fronteira tem vindo a passar por um processo de intensa descaracterização cultural e religiosa, um problema caricaturado no constante crescimento dos seus regionalismos e nacionalismos secessionistas, que afecta muito mais a actual sociedade espanhola do que aquilo que é normalmente pensado. São disso um exemplo paradigmático as manifestações de repúdio e ódio gratuito que a esquerda radical espanhola fez em Santiago e, piores que essas, as absurdas demonstrações de total puerilidade em Barcelona, nomeadamente aquela em que várias centenas de casais homossexuais se beijaram durante a passagem do Santo Padre. Esse procedimento das minorias que, sem tampouco se queixarem de falta de igualitarismo ou de respeito e que parecem estar permanentemente carentes de atenção, choque, surpresa e até indignação popular, se acham no direito de insultar não apenas um grupo de fiéis mas também todo um país, a sua história e a sua civilização, mostra uma tremenda falta de entendimento daquilo que, pelo menos por agora, ainda faz com que exista algo chamado Europa: a matriz cultural/religiosa judaico-cristã. Assim sendo, e tendo em consideração que é precisamente essa matriz religiosa e, portanto, cultural, que serviu de base à única versão do conceito de “Europa” que é verdadeira e faz sentido, sendo o mesmo não sucede com os de Europa política, étnica e/ou cultural, torna-se pertinente questionarmo-nos sobre a própria coerência intelectual das manifestações neo-comunistas e esquerdistas. Que sentido fará basearmo-nos na tolerância que é inerente e, diga-se, incompreensivelmente devida quase unicamente à Europa, e, ao mesmo tempo, fazer pouco de uma das figuras que mais representa a base dessa mesma sociedade? Para que Portugal, Espanha e a Europa no geral possam crescer, evoluir e recuperar o papel que é seu de direito, têm de conhecer-se a si mesmos, e, mais importante que isso, têm de aprender a aceitar-se. Talvez quando isso acontecer as minorias não sintam necessidade de se beijar em frente ao representante da única Europa que, com efeito, existe. Rafael Borges
Fechar a estrada antes que o rio decidisse por nós
Este texto é um reconhecimento. Escrevo-o porque sei que os factos aconteceram desta forma. Porque conheço quem tomou a decisão. Porque sei como foi ponderada, discutida, insistida. E porque nem sempre quem evita a tragédia é quem aparece a explicá-la.



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