Era uma vez uma menina, muito menina, muito curiosa, muito apaixonada. Era uma vez um buraco, muito escondido, muito fundo, muito nublado. Era uma vez um urso, muito urso, muito rápido, sempre quase atrasado….. Também havia um jardim nesta estória. Conta o Lewis Carol que a Alice largou a sua gata Diana e correu atrás de um coelho que contava o tempo e deu consigo a cair durante um tempo que era tão indeterminado que a embarcou numa viagem fantástica com a sua saia de pára-quedas. O meu nome é Ana Carina Paulino e finalizei em Julho do ano passado a licenciatura de Teatro da ESAD.CR. Se calhar alguns de vós não se lembram da licenciatura em Teatro que a ESAD.CR costumava oferecer aos alunos. Disponho do meu tempo agora para uma viagem pela memória de um outro tempo longínquo. Reza a história que na altura assumia a coordenação do curso um senhor de seu nome João Garcia Miguel – um corpo caricato numa licenciatura que tinha tanto de frágil quanto de atípica. Esse senhor dotado de uma formação artística nas artes plásticas e um percurso posterior de vasta experiência e investigação no campo das artes performativas havia dado, há relativamente pouco tempo, início a um doutoramento. Figura emergente no meio teatral contemporâneo este senhor professor dividia o seu tempo entre as suas próprias criações (e a consequente gestão do seu próprio espaço de trabalho em Lisboa), as aulas (das unidades curriculares mais fortes do 1º e 3º ano), o doutoramento, a coordenação de curso e com certeza mais uma série de tarefas que nem me lembro (uff, estes tempos parecem-me cada vez mais umas miragens). A acumular isto tudo ele tinha também uma outra tarefa que sempre o apaixonou: uma dedicação extrema, e afectuosa aos seus alunos – como um pai generoso que cria (e quer sempre) um rebanho de filhos, expropriando-se de tudo o que possui para os abrigar de heranças. Como quem constrói uma casa, ele afundava-lhes alicerces, cobria-os de betão, as paredes iam-se construindo e ele reaparecia no fim para assistir aos seus pródigos montarem um telhado por si mesmos. E o prazer que ele sentia nisso.. Era naquela altura em que havia uma mística qualquer que fazia os olhos dos professores sorrirem de orgulho no que os seus alunos absorveram. Tenho sempre muito para dizer e depois nunca digo nada, e com tanto enredo a única coisa que importa desta história, agora a Alice completou o buraco e o coelho o tapou para sempre (deixando o urso do lado de fora) é lembrar que o senhor professor de quem se fala criou 8 peças (metade delas com alunos da escola) enquanto me deu aulas (3 anos…), foi actor, encenador, dramaturgista, pensou, estudou., pintou, participou em inúmeros festivais em Portugal e em Espanha, expôs em galerias, explorou e ocupou espaços institucionais e alternativos (até dirige e programa um Cine-Teatro) e nunca por um instante ele deixou de apoiar os seus alunos em qualquer situação, nunca deixou de criar as melhores condições para que o curso funcionasse e oferecesse aos alunos tudo o que eles precisavam, dentro e fora de portas. Nunca um pilar foi tão forte mesmo quando um terramoto ameaçava as redondezas. Os alunos do meu curso de Teatro cresceram com um upgrade fenomenal de material e condições técnicas e humanas conseguidas com o esforço e empenho de uma série de professores (entre eles o senhor em questão). Este senhor professor foi e é, para a maior parte dos alunos, um exemplo de força, de coragem, de dedicação, de amor e não há um aluno que ali entre que (secreta ou indiscretamente) não sonhe almejar e construir e ser pelo menos metade do que ele é, do que ele conseguiu do que ele conquistou. A distinção do curso de Teatro de que eu me lembro foi sempre o espírito de iniciativa, a ânsia do trabalho, a dedicação dos alunos que trabalhavam de manhã à noite, nas férias, nos fins-de-semana, em feriados e dias de greve em busca de uma formação autónoma e privilegiada. Desde há um ano para cá (desde que acabei o curso) que sou responsável pela produção de um dos coreógrafos do nosso país mais reconhecidos nacional e internacionalmente e um pouco daquilo que consegui se deve a tudo o que este professor me ensinou e à força e coragem que ainda hoje ele me transmite. Porque é verdade que o nosso “primeiro” professor se torna, para bem ou para o mal, o nosso mestre para toda a vida, no meu caso para todo o bem. E acabo com pena de que os meus colegas que venham percam a oportunidade e o prazer de aprender (e ensinar um pouco) com um artista com um percurso tão activo, completo e interessante quanto o do João Garcia Miguel. Compadeço do luto e louvo a força dos que ficaram a honrar e proteger o progenitor que tanto nos inspira a todos. P.S. – Tenho ainda a dizer que este senhor professor ainda teve tempo de ir a Barcelona receber o prémio Prémio FAD (Foment de las Artes i del Disseny) Sebastià Gasch pela sua criação Burgher King Lear que tanto orgulhou a ESAD nessa altura. Ana Carina Paulino
A ESAD no País das Maravilhas
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