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Amigos recordam Renato Mendonça

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Aveiro, 18 de Abril de 2009 Estou, quem fala? Olá Gamelas, é o João. O sotaque característico do Norte e o timbre que o enforma, ajudaram imediatamente a identificar este João. Olá companheiro. Tudo bem contigo? Um mau pressentimento surgiu no meu espírito. A última vez que o João me tinha ligado tinha sido a […]
Amigos recordam Renato Mendonça

Aveiro, 18 de Abril de 2009 Estou, quem fala? Olá Gamelas, é o João. O sotaque característico do Norte e o timbre que o enforma, ajudaram imediatamente a identificar este João. Olá companheiro. Tudo bem contigo? Um mau pressentimento surgiu no meu espírito. A última vez que o João me tinha ligado tinha sido a dar-me notícia da morte de um amigo querido de ambos, o António Borges. Tudo bem comigo, mas as notícias hoje não são boas. O Renato morreu. Assim, sem mas, nem poréns, seco e entalado. O silêncio que se seguiu tornou sonoras as nossas respirações. Por fim, o João contou o que sabia. Pouco, muito pouco, para permitir o reequilíbrio emocional perdido, pelo que mais respirações entraram na ligação telefónica. Lá acabámos por combinar as coordenadas do nosso encontro para, no dia seguinte, estarmos presentes nas Caldas da Rainha. O Renato. O meu muito especial amigo, indelevelmente ligado aos anos quentes do PREC: 74, 75, 76, 77, … Foi em 74 que o conheci. Trabalhávamos ambos na mesma empresa – CTT. Questões de natureza sindical trouxeram-nos à mesmo reunião. No final, já alinhávamos pela mesma equipa. Depois, veio o trabalho e, com ele, a descoberta mútua de todos os envolvidos. Na época era um miúdo (25 anos), acabado de regressar da guerra colonial (OUT1973), com fome e sede do diferente, que fosse justo, solidário e universal. O meu encontro com o Renato foi, para mim, devastador. A matriz de valores com que cheguei foi aquela com que saí (De facto, nunca mais se sai. Este tipo de encontros não teve, nem poderá ter um fim. Renovar-se-ão em amizades fraternas, com complemento das diferenças, não importando as distâncias. Enquanto houver seres humanos, haverá sempre alguns que, inevitavelmente, se farão tripulantes na Barca da Utopia!), melhor, foi aquela com que embarquei. Que fazer daqueles valores, como os semear e, como das sementeiras colher os frutos, tudo isto passou a assumir novos significados, com novos objectivos, com novos caminhos a percorrer e, mais importante, reinventando-nos. Desse tempo ainda guardo os sabores e os aromas das vitórias (saudosas bebedeiras de sentido), das derrotas (também as cicatrizes) e dos compromissos (particularmente a honra). Éramos responsavelmente livres, solidários, inventivos e disponíveis. De todos nós, era o Renato a luz mais brilhante, a mais quente, a mais acolhedora. Tinha o Renato uma qualidade especial e inata: raciocinava com os sentimentos e as emoções. A sua lógica pouco tinha de analítico, construído, doutrinal. Nunca lhe conheci qualquer ortodoxia. Era saudavelmente contraditório, como a vida. O Renato tomava consciência do que sabia ao exprimir-se, ao agir, algumas vezes ao retirar-se. O conhecimento da vida, nele, não partia da reflexão, mas do viver em si mesmo. Bastava-lhe ser. O trabalho do cérebro era a busca do exprimir, era o comunicar, era o ter que inventar, porque era novo. No entanto, sempre o conheci um ouvinte paciente e atento. Tive a oportunidade de o ver espantado com o que ouvia, como que admirado por não saber que já sabia, o que a ouvir estava. Um homem assim só podia ser livre e utópico. Nada impunha, como a ninguém permitia que lhe impusesse algo. Por amor, era capaz de fingir, talvez até de abdicar – acto supremo de renunciar ao meu a favor do teu! Escravo, nunca. Tinha com as “instituições”, qualquer instituição, uma desconfiança de princípio. Ele sabia que uma instituição, qualquer instituição, só é progressista enquanto movimento de afirmação pela conquista da sua novidade. Após alcançar o seu espaço e exercitar o “seu poder”, acontece a inevitável cristalização. Ao Renato sempre o conheci inimigo declarado de qualquer tipo de cristalização. O afrontamento, como método, sempre foi um princípio orientador e estruturante da sua praxis. Também o conheci como homem de acção, mas, acima de tudo, como um garimpeiro obcecado de novos caminhos para o mais justo, o mais solidário, o mais feliz, o que o fazia azedo com todo o tipo de conformismo. Partiste irmão? NÃO. Cada um de nós, que te guarda no coração, enquanto a vida lhe der forças, continuará a semear, junto dos filhos, dos netos, dos amigos, nas tertúlias, nos locais de trabalho, os valores com que enchemos a nossa Barca: Liberdade, Justiça, Solidariedade, Fraternidade, Condições de Acesso para todos, em condições de oportunidade iguais. Destes, alguns continuarão, por sua vez, a obra. Este, será um movimento que irá ter a idade do homem. Nasceu e morrerá com ele. Quem, como nós, compreende a inevitabilidade da Utopia, sabe que é assim! Até sempre companheiro. A saudade, essa, sabê-la-emos contornar, lembrando-te. Francisco Gamelas

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