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Recordações da Guerra

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Tadeu Simões, soldado de Ferrel em Angola Tadeu Conceição Simões nasceu em Ferrel, Peniche, há 70 anos. Antes de cumprir serviço militar foi agricultor. Quando regressou de Angola à sua terra-natal, emigrou para França, onde esteve nove anos, trabalhando numa fábrica de vidro, e seis anos na Alemanha, onde laborou numa fábrica de moldes para […]
Recordações da Guerra

Tadeu Simões, soldado de Ferrel em Angola Tadeu Conceição Simões nasceu em Ferrel, Peniche, há 70 anos. Antes de cumprir serviço militar foi agricultor. Quando regressou de Angola à sua terra-natal, emigrou para França, onde esteve nove anos, trabalhando numa fábrica de vidro, e seis anos na Alemanha, onde laborou numa fábrica de moldes para material de guerra. Em 1978 voltou definitivamente a Portugal e dedicou-se à avicultura e foi proprietário de aviários. Tirou o segundo ano num curso de certificação de adultos, actualizando o diploma da quarta classe que tinha. Está reformado há cinco anos. É casado há 45 anos, tem um filho de 42 anos e uma filha de 33 anos. Fez a recruta em Queluz, no Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa, em 1960. Três meses depois, quando passou a pronto, foi para o Quartel-General do Exército, em Lisboa. Desempenhou funções na messe de oficiais até ser mobilizado para Angola. O embarque foi a 3 de Junho de 1961. Foi no “Vera Cruz”, onde seguiam três mil homens de várias unidades. A Companhia de Artilharia 120 estava sob o comando do capitão José Carlos Mesquita Lavado, que impunha todo o respeito aos militares. Os camaradas foram a segunda família de Tadeu Simões. Desembarcou na cidade de Luanda no dia 12 de Junho e foi para o Grafanil, onde se juntavam as tropas todas antes de partirem para o mato. Após seis dias de permanência, seguiu de comboio para Malanje. “Ao passar pela cidade de Salazar já se via alguma destruição e ouvia-se falar em muitos mortos”, recorda. “Retomámos a marcha a passo de caracol por causa dos obstáculos que punham na linha de comboio”, relata. No dia 20 chegaram a Malanje e instalaram-se no Quartel de Caçadores Especiais, para cinco dias depois rumarem até Duque de Bragança e ali foram divididos em pelotões. O comando e metade da companhia, baptizada como “Palancas Negros”, ficaram em Duque de Bragança, um pelotão, ao qual Tadeu Simões pertencia, foi para o Forte da República, comandado pelo alferes José Filipe de Mendonça Carvalhosa, e outro para o Cuale, comandado pelo alferes Otelo Saraiva de Carvalho. “Onde eu estava havia um simples quartel. Ficávamos num barracão e íamos todos os dias patrulhar e garantir a segurança dos negros que andavam na cultura do algodão. Havia várias sanzalas (conjunto de palhotas), mas havia poucos mais de dezena e meia de brancos. Era um ponto estratégico, pela importância do algodão para a economia do país”, conta. A primeira ocorrência de vulto ocorreu a 20 de Julho, quando foram acordados para irem em socorro de uma sanzala que estava a ser assaltada. “Os negros estavam a ser atacados pelos próprios indígenas, porque uns queriam ficar e outros queriam sair, e os que não quiseram sair foram assassinados. Qual é o nosso espanto, quando chegámos só vimos corpos queimados e esquartejados das catanadas. Eram cerca de 30”, descreve. No dia 6 de Agosto, pelas treze horas, sofreram uma emboscada da UPA (União de Povos de Angola), quando seguiam numa coluna com três viaturas e vinte homens pela picada, em Camabatele. “Apenas se via o capim que quase cobria as viaturas. Eu seguia numa GMC (carro pesado) com mais doze camaradas, como o “Pinguinhas”, o “Jojó”, o “Quarentinha”, e avistámos em cima das árvores alguns negros e de imediato a viatura caiu num buraco”, lembra. A cabine da viatura ficou quase enterrada na ratoeira. Começou então o tiroteio, que durou alguns minutos. Não era com G-3, que não tinham. O inimigo tinha canhangulos (arma artesanal) e catanas, e “era o salve-se quem puder”. “Os negros mandavam água para cima de nós e gritavam que as balas dos brancos eram água e não matavam. Coitados, poucos escaparam do combate a seis metros de distância. Saíamos vitoriosos, com apenas um pneu furado. Não tivemos baixas e deles morreram onze”, indica Tadeu Simões. “Na altura apercebi-me que tínhamos ido para a guerra sem estarmos preparados para tal. Tínhamos um capacete, uma farda amarela e para nos defendermos a velha mauser”, refere. Depois deste ataque foi para o Cuale, para guardar os trabalhadores no algodão. “O sofrimento aumentava. É triste, mas tínhamos dias em que não comíamos. Tudo era escasso, até a água”, aponta. Passados dois meses, um camarada – o soldado “Algés” – morreu num acidente, quando regressava com mantimentos e correio de Malanje. O jipão voltou-se e ficou debaixo do veículo. Foi sepultado no cemitério de Duque de Bragança. “Mas a verdadeira guerra estava para começar. No Norte do território era uma brincadeira, quando comparado com o Sul”, sublinha. Em Agosto de 1962 embarcou para São Salvador do Congo, encostado à fronteira. Ficou aquartelado em Quiende, num local que não tinha população alguma. Ali permaneceria até regressar à metrópole. No dia 24 de Dezembro de 1962, quando ia a São Salvador buscar mantimentos para passar o Natal no acampamento, cerca das 21 horas, ao atravessar uma pequena ponte de ferro, os dois primeiros jipes passaram e a terceira viatura, onde seguia Tadeu Simões, que era a GMC, fez rebentar uma mina do lado direito e fez um buraco. Ficou ferido no joelho o condutor, Marcelino Venâncio, de alcunha “Malveirão”, e Tadeu Simões ficou ferido num braço e recebeu estilhaços na cara. “Louvo a coragem do condutor, porque a GMC ficou atravessada em cima do gradeamento da ponte e o chefe de viatura, o furriel Abreu, tinha ficado completamente desorientado e queria sair para o lado do rio”, manifesta o penichense. “Morríamos todos ali se o inimigo estivesse à nossa espera de armas automáticas. O rádio das nossas viaturas não conseguia fazer chegar o sinal de socorro ao acampamento mas ao fim de sete horas apareceu um pelotão em nossa ajuda. Esse pelotão era comandado por Otelo Saraiva de Carvalho, que nessa altura já era tenente. Foi assim a nossa passagem de Natal, que jamais esquecerei, e ainda hoje tenho nos ouvidos o estrondo da mina que rebentou debaixo dos meus pés”, diz. No primeiro semestre de 1963, o que mais o impressionou foi um camarada de outra companhia – um soldado negro que estava integrado nas patrulhas conjuntas que faziam – morrer numa emboscada com as duas pernas desfeitas, por causa de outra mina, quando seguia num Unimog. Próximo de Quiende, o rebentamento de uma mina provocou quatro feridos ligeiros. Houve ainda outra mina numa patrulha seguia numa picada, com um ferido grave, o sargento Bezerra, que foi evacuado para Portugal. Em todos estes casos Tadeu Simões não seguia nas patrulhas, porque estava de sentinela. Em Angola teve a ocasião de se encontrar várias vezes em São Salvador do Congo com o seu irmão, Joaquim Carlos Simões, que é seis anos mais novo, e que estava no Batalhão 357 de Caçadores Especiais, depois de ter ingressado na tropa como voluntário em 1961. “A maior alegria que senti em Angola foi encontrar o meu irmão, quando ele foi para lá a 28 de Abril de 1962. De vez em quando escrevíamos um ao outro e pedíamos aos comandantes de companhia para nos encontrarmos. Ele estava em Cuimba, a quarenta quilómetros de São Salvador, na Companhia 307 de Caçadores Especiais, e eu a trinta quilómetros. Combinámos juntarmo-nos quando íamos buscar géneros. No Batalhão dele, ao fim de quinze dias de lá estar, morreram sete militares de uma vez”, recorda. Tadeu Simões regressaria a Portugal a 6 de Setembro de 1963, a bordo do “Niassa”, e o seu irmão só a 27 de Junho de 1964. Francisco Gomes (texto)

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