Em 1940, fugidos à fúria assassina de Hitler e das suas hostes, exilaram-se em Portugal muitos milhares de cidadãos da Europa, de uma terra em chamas, de gritos e dores clamorosas, de fomes e violências. Portugal não tinha entrado na guerra, mas sofria-a na carência angustiosa dos alimentos essenciais, do pão e do azeite, que o Salazar há muito, desde 1936, mandava para a Espanha, na ajuda às tropas de Franco que combatiam a República. Era o tempo dos fascismos, dos governos totalitários, dos regimes de força e da “ordem” como a propaganda dizia e os estrangeiros vinham encontrar em Portugal, tolerável apenas porque as balas da ditadura eram a miséria que não amachucavam os estrangeiros. Era um tempo estranho. As mulheres, jovens e maduras, desenvoltas, airosas e alegres, iam para os cafés, traçavam as pernas, de carnes ao léu, sem falsos pudores, obrigando as beatas a benzerem-se como se elas viessem do inferno e as quisessem puxar para lá. As senhoras daquele tempo levavam duas horas a preparar-se para sair. Quando podiam tinham duas criadas, a criada de fora e a cozinheira. Normalmente podiam, dados os miseráveis ordenados e o rendimento suficiente a manter o estatuto. A criada de fora era apta aos trabalhos mais exigentes, pentear a patroa, escovar-lhe o fato, alisar-lhe a saia, abotoar-lhe o corpete. Quando a senhora estava pronta, depois de bem espreitado algum cabelo que tivesse caído para os seus ombros, saía para as compras, que em caso nenhum deixaria que as criadas o fizessem, que lhe podiam roubar dois tostões. Vinham à praça, muito direitas, com a criada caminhando atrás dela, com a cesta na mão. Iam à Praça do Peixe, espreitar a pescada de Vigo, cheias de ar na barriga, muito sopradas para parecerem mais gordas. Meia dúzia de charrocos da lagoa, que eram vendidos à dúzia, ou um par de chicharros, para o comer das sopeiras. Se era Domingo havia a feira das galinhas, que tinha lugar ao lado do peixe, e se calhava a senhora comprava uma galinha, gorda rechonchuda, apta para uma boa canja, com bastantes “olhas” de gordura, atestado de qualidade e valor. Ia depois à Praça da Fruta e lá comprava as batatas, couves, os nabos os rabanetes e a salsa, as maçãs camoesas e a pêra carapinheira, que hoje ninguém sabe o que era. Todo este aparato, no cotejo fatal com os estrangeiros, aparecia vestido de um ridículo tão caricato, que passado pouco tempo morreria de náusea. Já as senhoras não iam à praça com as criadas e até ganharam coragem de ir ao café. Levou tempo é certo, não mostravam a perna é verdade, mas já eram capazes de rir alto, o que era dantes uma imperdoável falta de educação. Os estrangeiros enchiam as Caldas, chegaram cá sem dinheiro, sem roupa (senão a que traziam vestida) sem nada. À sua espera já o Comité Judeu, com sede na Cova da Onça, tinha os escudos suficientes para o alojamento e a alimentação. Nem todos eram judeus, mas todos beneficiavam desse apoio. Por essa época já eu trabalhava de alfaiate e fiz muitos trabalhos para os estrangeiros. Conheci famílias muito curiosas, de hábitos para mim bem estranhos. Numa quinta da família Vieira Lino, no princípio da Estrada de Tornada, vivia uma família de “mormons” pai, mãe, cinco filhos. Todos de preto, hierarquicamente de luto como um lamento sem cor. Fui lá, a seu convite, por indicações de um seu amigo a quem tinha feito obra e fiz para os rapazes três pares de calças de baeta preta. Quando lá fui levá-las a um fim de tarde, o pai convidou-me para comer. Eu, com 18 anos e sempre com fome, disse que sim. Não sei bem se me entendiam, mas já falavam num português muito fluente: diziam “bom dia”, “quanto custa ?”, e “muito obligado”, o resto eram gestos… O pai guiou-me para o quintal, que tinha um cômoro, no cimo do qual tinham aberto um rosso atravessado por dois caniços e onde ardiam várias ervas odoríferas. Por cima dos caniços uns pedacitos de carne, virgens de sal ou qualquer outro tempero, iam-se impregnando daquele esquisito fumo. Lá quando muito bem entenderam tiraram os bifinhos e colocaram-nos sobre uma fatia de pão que me estenderam. Era uma coisa deliciosa e não era só pela fome (que é o melhor cozinheiro) mas sim porque era diferente, e melhor, de um estranho sabor a fumos de muito subtis aromas. Conheci, já mais homem (18, 19 anos) uma mulher húngara a quem fiz uma saia de flanela cinzenta e quando lá fui prová-la se despiu à minha frente, na sala, sem pejos e me fez a mim despertar sonhos de romance. Morava no Largo Espírito Santo e beijou-me com um ardor que a minha timidez não era capaz de acompanhar. Ainda revivo essa cena como se fosse ontem. Tinha 28 anos e era muito bonita e quem ela beijava não era o adolescente tímido, era um ser livre, que não tinha sido pisado pelas botas das SS, era um ser ainda pouco maduro, mas com um futuro sem armas com que ela sonhava também. Os estrangeiros trouxeram consigo um ar de renovação, uma maneira de ser diferente, sem compostura hipócrita. Era uma sociedade de seres livres, sem mofos de sacristia nem livros de boas maneiras. Traziam das suas terras uma prática de liberdade onde a violência estava ausente e a vida era soberana. Trouxeram a modernidade a solidariedade e a ânsia de paz sem a qual a vida vale pouco. Vieram para um país distante, longe do Hitler, onde não seria imaginável a guerra, e no entanto, vinte anos depois, o ditador português desencadeava uma guerra durante 13 anos, dizimando centenas de jovens, imolados aos sonhos megalómanos. Hermínio Oliveira
Tempos de mudança
24 de Setembro, 2008
Em 1940, fugidos à fúria assassina de Hitler e das suas hostes, exilaram-se em Portugal muitos milhares de cidadãos da Europa, de uma terra em chamas, de gritos e dores clamorosas, de fomes e violências. Portugal não tinha entrado na guerra, mas sofria-a na carência angustiosa dos alimentos essenciais, do pão e do azeite, que […]
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