Quando os diques do Rio Mondego cederam à força das cheias e o tabuleiro da Autoestrada A1 ruiu, o país viu imagens impressionantes. Comentou-se a dimensão do estrago. Falou-se da coragem da presidente da Câmara de Coimbra. E bem. Em momentos difíceis, liderar localmente é essencial.
Mas quase ninguém perguntou quem fechou a estrada antes do colapso. Quem ouviu os alertas técnicos. Quem cruzou a informação que indicava que os diques poderiam rebentar. Quem percebeu que naquele dia não havia margem para optimismos administrativos.
O presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, José Manuel Moura, caldense de origem e de princípios, tomou a decisão difícil: encerrar a A1 e preparar todos para o pior cenário. Fê-lo depois de ouvir o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, José Pimenta Machado, que alertava para a possibilidade real de rotura dos diques.
Não foi uma decisão teatral. Foi técnica. Foi consciente. E foi insistida. Porque mesmo assim houve momentos de hesitação, ponderações naturais, aquele atraso próprio das decisões que têm impacto nacional. Mas José Manuel Moura não foi com meias medidas. Sabia que, se o pior acontecesse, não haveria segunda oportunidade.
E o pior aconteceu.
O tabuleiro cedeu. Mas não havia carros a atravessá-lo. Não havia famílias a regressar a casa. Não havia vidas suspensas sobre a água.
Se aquela decisão não tivesse sido tomada, hoje estaríamos a falar de vítimas. Estaríamos a discutir responsabilidades em tom mais grave. E muito provavelmente ninguém teria tido protagonismo algum. Porque a tragédia sobrepor-se-ia a qualquer narrativa de coragem política.
É fácil elogiar quem enfrenta a crise à vista de todos. Mais difícil é reconhecer quem, nos bastidores, evita que a crise se transforme em luto.
Conheço José Manuel Moura há anos. Como comandante dos bombeiros das Caldas. Como comandante distrital. Como perito europeu e internacional. Como técnico superior do Ministério da Administração Interna. Como dirigente municipal. E agora como presidente da Proteção Civil. Sempre igual na essência: firme, ponderado, consciente de que cada decisão pode alterar destinos.
Nem ele nem a sua equipa virão reivindicar mérito. Trabalham num registo onde o sucesso se mede pelo que não acontece. Onde o aplauso raramente chega porque, quando tudo corre bem, parece que nada aconteceu.
Mas aconteceu. E porque sei que aconteceu assim, escrevo estas linhas.
Num país rápido a distribuir culpas e lento a distribuir reconhecimento, é justo dizer: houve competência. Houve coragem. Houve liderança. Ele merece o reconhecimento local e nacional por tudo o que tem feito.
Fechar uma estrada pode parecer um acto administrativo. Naquele dia, foi um acto que salvou vidas.
E salvar vidas nunca é um detalhe.
Até para a semana.



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