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Uma Sociedade Crustafarionista: quando a frase substitui o indicador (e a “aberta” substitui a governação)

 

Há um erro recorrente na forma como falamos da Lagoa de Óbidos, da Foz do Arelho e da duna de Salir do Porto: tratamos o assunto como se fosse “uma praia em apuros”. Não é.

O que está em causa é um sistema costeiro dinâmico – e um vazio que tem nome: falta de governação técnica permanente. A “aberta” (a embocadura da lagoa) não se desloca por capricho: desloca-se porque é, por natureza, instável, comandada por deriva litoral, marés, tempestades e transporte de sedimentos. O fenómeno é natural. O dano é institucional.

E é aqui que entra uma palavra incómoda – mas exacta – para descrever um risco muito real do nosso tempo: crustafarionismo. Não como insulto, mas como sintoma: quando a decisão pública passa a viver mais de versões bem contadas do que de prova verificável; quando a frase substitui o indicador; quando o anúncio substitui o sistema.

O episódio como método (e o “ai Jesus” como rotina)

Há riscos que não são surpresa – são padrão. Quando um risco se repete, o problema já não é o mar nem o vento: é o método de decisão. Um território que vive de sustos está, na prática, a escolher pagar mais caro por actuar tarde.

O ritual repete-se com uma regularidade quase perfeita: depois do dano, multiplicam-se alertas, apelos à Ministra, visitas e declarações. A comunicação é importante – mas não substitui instrumentação permanente. “Ai Jesus, aconteceu.” Mas no antes – e no durante – raramente existe aquilo que separa um território sério de um território vulnerável: planeamento e prevenção.

Um sistema costeiro não respeita comunicados; respeita física. E quando o risco é recorrente e o mecanismo é conhecido, insistir na improvisação não é fatalidade: é opção. A urgência, nesses casos, não é azar – é o preço de não ter desenhado um sistema.

A regra que muda tudo: sem séries não há governação

A política do episódio tem uma assinatura técnica simples: a ausência de séries. Sem monitorização contínua, o risco deixa de ser governado e passa a ser “gerido” por acaso, ruído, pressão mediática e memória curta. O resultado é inevitável: uma gestão pública reactiva, por definição.

Um protocolo a sério tem quatro peças que qualquer cidadão entende:

• Indicadores contínuos (séries): para conhecer tendência, não percepções.
• Limiares públicos (com periodicidade fixa e arquivo acessível): o ponto a partir do qual “deixar andar” deixa de ser aceitável.
• Gatilhos de actuação: o que se faz quando o limiar é ultrapassado.
• Responsável e prazo: para que a realidade não seja órfã.

Isto não é “mais burocracia”. É exactamente o contrário: é reduzir a arbitrariedade, decidir mais cedo e impedir que a política pública viva de sustos.

Não falta ciência: falta rotina de decisão

O país não falha por falta de conhecimento. Falha por falta de rotina. Entre o que sabemos e o que fazemos existe um buraco: séries que não se mantêm, limiares que não se publicam, gatilhos que não se assumem, responsáveis que não assinam. Não falta ciência – falta operação.

Governação, aqui, não é produzir mais papel. É manter activo um circuito simples:

medir → decidir → actuar → verificar → aprender

Quando este ciclo não existe (ou não é público), instala-se o crustafarionismo em estado puro: qualquer falha é reduzida a “aconteceu”, qualquer risco a “fenómeno natural”, qualquer atraso a “complexidade”. E o território fica preso ao pior dos mundos: reage tarde, gasta mais e aprende pouco.

Salir do Porto: a duna não é paisagem – é protecção civil

Há um ponto que deve ser dito sem romantismos: uma duna não é um adorno natural. É uma infra-estrutura natural de protecção civil. Absorve energia de tempestades, protege o edificado e compra tempo ao território. Quando se degrada, o risco deixa de ser abstracto: traduz-se em danos materiais, cortes, custos de emergência e erosão acelerada.

Por isso, a proposta séria não é “vamos proteger” como slogan. É tratar a duna como se trata um dique: com critérios, metas e verificação:
• definir cotas críticas e áreas de exclusão;
• monitorizar tendência (perfil, volume, vegetação);
• executar um plano de reabilitação com metas, calendário e avaliação;
• publicar resultados, para que a protecção seja um facto – não uma promessa.

O pedido decisivo à tutela: não uma obra – um sistema

Se houver uma frase capaz de elevar politicamente a intervenção junto da Ministra, é esta:
Não pedimos uma obra. Pedimos um sistema.

E esse sistema é desenhável, executável e verificável:
1. Protocolo técnico permanente para a embocadura da Lagoa de Óbidos – com limiares públicos (posição da aberta, largura mínima funcional do areal, cota crítica da duna e gatilhos de actuação).
2. Instrumentação regular orientada para decisão – não para “avaliar quando há crise”, mas para operar, com frequência definida, um modelo simples e útil: medir tendência, prever cenários próximos, decidir cedo.
3. Plano plurianual de gestão de sedimentos (lagoa + frente costeira) – com critérios transparentes e coerência entre intervenções e efeitos a jusante.
4. Duna de Salir do Porto como activo de protecção civil – com monitorização contínua, reabilitação por metas e auditoria de resultados.
5. Observatório costeiro local com dados públicos – para que cidadãos e decisores saibam, em cada momento, qual é o estado real do risco.

Isto não é um luxo. É a forma moderna – e responsável – de governar um sistema que muda todos os dias.

Literacia: a infra-estrutura invisível

Há uma razão silenciosa para o improviso sobreviver: a literacia. Quando a comunidade não vê indicadores, não aprende a lê-los; quando não os lê, não os exige; e quando não os exige, qualquer explicação serve. A vulnerabilidade instala-se aí – não no discurso, mas na falta de instrumentos partilhados para o contrariar.

É precisamente por isso que o Projecto Oeste Azul se torna útil: não por ter “opiniões”, mas por insistir em regras simples e verificáveis. A primeira é esta: se afecta a vida das pessoas, tem de ser medido de forma contínua, tornado público e ligado a decisões concretas.

Caldas Azul LIVE: o oposto do “cone de luz”

Durante anos aceitámos um hábito caro: gastar em percepção e chamar-lhe ambição. O “cone de luz” – esse postal de Natal saído dos anos 90 – pode render fotografia. Mas não rende governação, nem prevenção, nem continuidade.

A Plataforma Caldas Azul LIVE é o oposto: não é decoração; é infra-estrutura. Um investimento sustentável, permanente e discreto, capaz de suportar sensores, painéis de indicadores públicos e projecção cívica programável. Luz quando faz sentido – mas, sobretudo, dados, tendência, limiares e decisão baseada em prova.

A diferença não é estética. É civilizacional: comunicar versus governar.

Fecho: a pergunta que obriga a decidir

No fundo, tudo se resume a uma escolha: continuar a viver de urgências ou construir prevenção como rotina. Quando os riscos são previsíveis, a falta de planeamento deixa de ser fatalidade – passa a ser decisão. E é aqui que o Oeste Azul começa, finalmente, a fazer sentido.
A próxima tempestade não será surpresa. Será apenas mais um teste – a um sistema que ainda falta desenhar como sistema.

E a pergunta final, simples e impossível de contornar, é esta:

Quando teremos indicadores públicos permanentes, limiares definidos e gatilhos de actuação para a “aberta” e para a duna – e quem responde quando não forem cumpridos?

José Filipe Soares
MSc Engenharia e Tecnologias da Saúde · MBA em Gestão

Nota do autor: Mantém-se a ortografia tradicional da Língua Portuguesa, por respeito à sua matriz histórica e etimológica – evoluir não é apagar raízes.

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