Projecto Oeste Azul: O Inverno Não Cria Epidemias – Amplifica o que Ignoramos

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Todos os Invernos se repete o mesmo padrão: sobem as infecções respiratórias, aumentam as faltas nas escolas, cresce a procura dos serviços e as urgências ficam sob pressão. Isto não é surpresa – é previsibilidade.

 

A pergunta incómoda é simples: se o Inverno chega todos os anos, porque continuamos a agir como se fosse um evento excepcional?

A resposta não exige ideologia nem dramatismo. Exige apenas rigor.

O Inverno não “cria” vírus. O que faz – de forma consistente e mensurável – é alterar as condições de transmissão: mais tempo em interiores, menos renovação de ar, ar mais seco e maior tempo de exposição. A epidemia muda de nome. O mecanismo mantém-se.

O factor decisivo: ar interior e tempo de exposição

Em espaços fechados e mal ventilados, acumulam-se aerossóis respiratórios. Se a exposição se prolonga, o risco aumenta. Se o ar está seco, as mucosas perdem eficácia. Estes factos são elementares e independem do “vírus da estação”.

Por isso, quando se diz “no Inverno é assim”, o que se está a aceitar são condições previsíveis, sem correcção sistemática.

Quando o sistema reage, confirma o problema – mas tarde

Quando a incidência e a procura sobem, é frequente activarem-se respostas sazonais reforçadas: intensificação da vacinação, acompanhamento de surtos, reforço de escalas, reorganização de fluxos, aumento de capacidade, distribuição de equipamentos de protecção. Tudo isto é necessário.

Mas é, por definição, contingência: actua quando a pressão já está instalada. O que continua pouco assumido – e raramente medido – é o que vem antes: o ambiente onde a transmissão começa.

Tornada: quando o risco invisível deixa de ser abstrato

O caso recente de Tornada é um alerta local com alcance universal: o Inverno não cria apenas infecções – amplifica também riscos invisíveis dentro de casa, quando a ventilação falha e a combustão acontece sem controlo. É por isso que a prevenção tem de ser mensurável e auditável: CO₂ para perceber ventilação efectiva, partículas para conhecer o que respiramos e humidade para reduzir vulnerabilidade respiratória. E, quando existe combustão, há ainda um mínimo de segurança doméstica que devia ser tão comum como um extintor: detector de monóxido de carbono.

Prevenção estrutural: simples, mensurável, auditável

O Projecto Oeste Azul não compete com planos de contingência. Complementa-os onde eles falham por natureza: na prevenção primária.

Não é preciso tecnologia sofisticada para começar.

Bastam três indicadores práticos, medidos em tempo real e com registo, para que o ar deixe de ser “sensação” e passe a ser responsabilidade pública:

  • CO₂ – indicador directo de ventilação efectiva e de “ar usado”;
  • Partículas finas – aquilo que não vemos, mas respiramos;
  • Humidade – conforto, inflamação, bolores, ácaros e susceptibilidade respiratória.

Com dados, a prevenção deixa de ser retórica e passa a ser gestão objectiva: identificar espaços críticos, corrigir ventilação, ajustar ocupação, definir rotinas simples e consistentes.

Não é moda: é normalidade regulada

Convém recordar o óbvio: em Portugal existe enquadramento legal para a qualidade do ar interior (QAI) em edifícios de comércio e serviços, com requisitos, critérios e metodologias definidos – como já foi referido no artigo anterior.

Ou seja, falar de ar respirável não é inventar uma agenda. É alinhar a prática com o que já deveria ser entendido como normal: ar limpo como garantia pública.

Conclusão sem dramatismos

Planos sazonais são essenciais. Mas um concelho que quer ser resiliente não pode viver apenas de reacção. O Inverno não cria epidemias. Amplifica o custo do que adiámos: ventilação, monitorização e prevenção estrutural.

“No Inverno, o vírus muda; o ar que partilhamos é o mesmo.”

E a pergunta final é serena, factual e incontornável: se podemos medir para cuidar, porque continuamos a aceitar escolas, serviços, unidades de saúde e lares sem garantia pública de ar respirável?

 

José Filipe Soares

MSc Engenharia e Tecnologias da Saúde · MBA em Gestão

 

Nota do autor: o texto, na sequência do artigo “A Primeira Vacina é o Ar”, segue a ortografia culta da Língua Portuguesa, por respeito à sua matriz histórica e etimológica

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