Orçamento, estratégia e cem euros para sonhar

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Entramos num novo ano com o Orçamento da Câmara aprovado. À primeira vista, boas notícias. Mas como já é hábito nas Caldas, convém não ficar pela capa, porque o conteúdo traz sempre surpresas.

 

O orçamento passou. A contratação de mais funcionários, não. Há planos, há números, há intenções. Mas faltam braços. Diz-se que há funcionários a mais nuns serviços, mas faltam muitos na educação, ao ponto de já se avisar os pais que as escolas podem fechar por falta de assistentes. Quando se pergunta pelos incentivos para quem lá está, a resposta chega calma, redonda e vaga: “Vamos pensar nisso.”

Pensar é seguro. Decidir dá trabalho.

No saneamento, criou-se expectativa, falou-se muito, discutiu-se ainda mais. No fim, como manda a tradição, a montanha pariu um rato. Fala-se em escalões, mas anuncia-se mais fiscalização, mais coimas e aumento da taxa de resíduos sólidos urbanos. Traduzindo: paga-se mais, vigia-se mais, castiga-se melhor.

O serviço de limpeza de fossas existe e continuará a existir, mas o tratamento acaba sempre nas ETAR mais próximas, muitas delas subdimensionadas. Investimentos? Só se fala numa, a principal. As outras continuam à espera. Resolver o problema estrutural fica para quem vier a seguir.

Mas o momento alto do orçamento é, sem dúvida, a estratégia. Ou melhor, a explicação da sua ausência. Questionado pela oposição sobre o lema e o rumo, o poder responde com palavras mágicas: termalismo, master plan, visão. Palavras grandes, daquelas que enchem discursos e esvaziam perguntas.

Curiosamente, o poder queixa-se de que a oposição não gosta do master plan. Mas o poder também não gosta dos projetos antigos. Prefere fazer novos, gastar dinheiro outra vez, só para os poder vestir os projetos como seus. Aqui entra o ego. E a vitalização política. Não interessa que seja bom para as Caldas. O que interessa é que tenha assinatura do poder.

Depois vamos às rubricas e encontramos o detalhe delicioso: 100 euros para a promoção do termalismo. Nem sei se são cem ou sem. Um valor simbólico, quase poético. Cem euros para a tal estratégia estruturante, espalhados por um orçamento com 143 rubricas não estratégicas, abertas “para o que der e vier”. Planeamento criativo, versão sorte grande. Será este o tão Master Plan? Ficaremos a aguardar.

A oposição critica. O poder responde com a frase clássica: “E não é assim que sempre se fez. Não há anda de novo”.

Curioso, sobretudo vindo de quem prometeu fazer diferente. Que iria mudar. Afinal, a mudança só é válida quando convém. Quando não convém, muda-se apenas de opinião. Ou de ego.

E já agora, segurança. Muito se fala da Polícia Municipal, mas neste orçamento não se vê nem um euro para isso. Zero. Nada. Pessoalmente, nem sou defensor da Polícia Municipal. Prefiro mais agentes da PSP, mais GNR, mais médicos. Mas isso exige algo chato. Moções aprovadas por unanimidade na Assembleia Municipal, projetos sérios e investimento em habitação para estes profissionais, aproveitando escolas antigas para cresces e infantários ou o alargamento de bairros sociais. Mas isso dá trabalho. Não rende slogans.

Mas falando em habitação. Nas tais 143 rubricas, adivinhem qual é também a que tem cem euros para resolver um problema nacional? A habitação. Essa mesma que foi bandeira de campanha. Uma rubrica de cem euros para resolver um dos maiores desafios da cidade e do país. Será que foi para isto que os caldenses votaram?

Entramos em 2026 e nos anos seguintes com promessas recicladas, estratégias em saldo e problemas reais à espera de soluções reais. Veremos qual será, afinal, a mudança em que tantos acreditaram e votaram.

Até para a semana.

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