JORNAL DAS CALDAS – Nestes 23 anos de atividade acha que o espiritismo tem contribuído para a paz social, apesar da Guerra em Gaza, Ucrânia e outras?
Catarina Fernandes – A influência do espiritismo depende da adesão e da prática dos seus princípios pelas pessoas e comunidades; em sociedades fortemente polarizadas ou sob tensões geopolíticas, a sua capacidade de evitar guerras ou conflitos internacionais é limitada — mas pode atenuar tensões locais, promover reconciliação e amparar vítimas.
O espiritismo, ao promover a reforma íntima, a caridade, a humildade e solidariedade, contribui de forma significativa para a paz social nas comunidades onde tem influência, ajudando a diminuir ódios e fortalecer redes de apoio — elementos que, em conjunto, sustentam sociedades mais pacíficas e resilientes.
JC – A violência doméstica é um flagelo no mundo e também em Portugal. Na ótica espírita, como resolver este drama?
CF – Na ótica espírita a resolução da violência doméstica exige uma ação dupla: transformação moral individual (arrependimento, educação e reforma íntima) e intervenções práticas e comunitárias (proteção, apoio e medidas legais). Auxilia, na medida em que, ao promover a educação afetiva, o respeito mútuo e a humildade dentro do lar, desenvolve a empatia e o autocontrolo, prevenindo as agressões. Não obstante, somos criaturas humanas, e o sentimento de amor, nesse momento, é dilacerado. Recordo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu que a violência é uma doença da alma e, deve ser tratada na alma, tanto do ponto de vista espiritual quanto de natureza psíquica.
JC – O espiritismo é contra a imigração, à semelhança de alguns movimentos que se têm criado um pouco por todo o mundo?
CF – Não. O espiritismo, tal como expresso na obra de Allan Kardec, o codificador do espiritismo, não é contra a imigração. Pelo contrário, os ensinamentos espíritas realçam princípios que favorecem o acolhimento, a fraternidade e a caridade entre os povos. A doutrina espírita sustenta que todos somos filhos de Deus e irmãos, pelo que as fronteiras nacionais não anulam a obrigação moral de amparar o próximo. A caridade, implica ajudar quem sofre, seja por miséria, perseguição ou necessidade — circunstâncias frequentes na vida dos imigrantes. A caridade prática inclui o acolhimento, assistência material e orientação. A doutrina não prescreve políticas públicas concretas, os aspetos administrativos, económicos e de segurança nacional devem ser geridos com responsabilidade, de forma a obter soluções equilibradas.
JC – Sendo o espiritismo uma força de ação social em prol de uma vida melhor para todos, como vê a questão das alterações climáticas?
CF – Na ótica espírita, as alterações climáticas são um problema que exige responsabilidade moral individual e coletiva, ação prática e educação. O caminho passa por escolhas e comportamentos, pela promoção da justiça social e pelo apoio a medidas técnico-científicas e políticas que preservem a vida no planeta. Assim, o combate às alterações climáticas torna se também uma expressão concreta da caridade e do amor ao próximo. A Terra é um bem comum e o uso responsável dos seus recursos é um dever moral, onde os fenómenos que afetam o planeta podem ser vistos como resultado das leis naturais combinadas com as escolhas humanas.
JC – A corrupção generalizada é uma fatalidade na Terra ou tem solução?
CF – A corrupção generalizada não é uma fatalidade irreversível, mas uma consequência das imperfeições morais dos indivíduos e dos seus hábitos coletivos e, portanto, tem solução através do progresso moral. A solução exige trabalho moral e educativo dos indivíduos e das comunidades: educação das consciências, exercício da caridade, combate ao orgulho e ao egoísmo, prática constante da honestidade e das boas influências. Na prática devemos promover a ética pessoal, a educação cívica, criar ambientes que incentivem a responsabilidade e não a impunidade, e apoiar exemplos de integridade. Mudanças institucionais e legais são importantes, mas sem a elevação moral dos cidadãos serão apenas paliativos.
JC – Como o espiritismo encara o drama da pedofilia?
CF – O Espiritismo encara a pedofilia como uma grave expressão das imperfeições morais e das más inclinações humanas. A origem de actos perversos como a pedofilia está ligada a paixões e inclinações desordenadas — orgulho, egoísmo, cupidez, sensualidade desregrada, etc. Esses vícios comprometem a evolução moral do indivíduo e conduzem-no a prejudicar os outros. As crianças vítimas de abuso não são culpadas; pelo contrário, o Espiritismo realça a necessidade de protecção, caridade e socorro. O combate à pedofilia implica formação da consciência ética, educação das famílias, vigilância social, apoio às vítimas, sanções legais e trabalho de reeducação dos ofensores. O Espiritismo não preconiza impunidade nem fatalismo. Haverá consequências para os culpados segundo a lei humana (processo penal, prisão, terapias obrigatórias) e consequências espirituais que impulsionam a necessidade de arrependimento e reparação. A verdadeira reabilitação exige reconhecimento do mal cometido, arrependimento sincero e trabalho para reparar os danos.
JC – Porque existem milhões de deslocados no planeta enquanto outros vivem com luxo e sem dificuldades?
CF – A existência de milhões de deslocados e a riqueza de outros não é uma “injustiça eterna”, mas um reflexo da condição de mundo de provas e expiações, da pluralidade das existências e das escolhas individuais. A justiça tem de ser vista no tempo longo das reencarnações, onde a distribuição desigual de bens e males na Terra é vista como relativa e provisória. A reencarnação permite que cada Espírito passe por várias existências, recebendo nas diferentes vidas as provas e expiações necessárias. Assim, o que parece injusto numa vida pode encontrar equilíbrio noutra. Portanto, parte da diferença de condição resulta das escolhas e do percurso evolutivo de cada Espírito. Entretanto, devemos agir no presente com caridade, educação e esforço moral para diminuir o sofrimento e ajudar no progresso coletivo.
JC – Quer deixar uma última mensagem aos nossos leitores?
CF – Jesus disse: “Amar”. No momento em que conseguirmos amar, sem nenhum interesse, sem objetivo de receber uma resposta, nós encontraremos a plenitude. Na visão espírita, as provações, as imperfeições e até as obsessões e as desordens da vida são oportunidades de expiação e de progresso da nossa alma. Essa perspetiva dá sentido ao sofrimento — transforma o em lição — e incentiva a esperança e a responsabilidade. Não somos vítimas passivas, podemos trabalhar a nossa reforma íntima, cultivar a caridade e a educação moral, e assim atrair influências melhores e favorecer a nossa evolução. Além disso, a certeza de que existem Espíritos superiores prontos a ajudar, conforta quem sofre, indica que o auxílio é possível e que o destino é evolutivo. Estas ideias explicam-nos porque o Espiritismo é considerado o Consolador.
Procurámos ao longo destes 23 anos mostrar que a vida continua, através de provas científicas que existem da imortalidade, da comunicabilidade dos espíritos, da reencarnação, levando as pessoas a entender que, afinal, há uma justiça divina, igual para todos.



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