Angola: a vitória é certa!

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Após meio-século de independência, a expressão “Pelo menos como no tempo do colono”, corrente entre os angolanos com menos de 45 anos, que não têm traumas coloniais e vêem Portugal apenas com pragmatismo, é o indicador mais eloquente de que a concretização de uma Angola desenvolvida, democrática e igualitária, ainda não aconteceu e não é para já. Não se trata de saudosismo. É tão-só a constatação da incapacidade dos dirigentes actuais de fazer pelo menos igual ao que havia antes da “dipanda” — termo angolano que, talvez num misto de ironia e fatalismo, é a corruptela realista que substitui a idealizada “independência”.

 

O sociólogo David Boio (cuja empresa de sondagens, Ovilongwa, é responsável pelos inquéritos de opinião feitos em Angola), em vésperas da comemoração do jubileu da independência angolana, declarou ao jornal Público que a maioria da população jovem prefere aceitar a História como parte da identidade nacional, reconhecendo que o país não precisa de apagar o que foi para afirmar o que é. Para a maioria dos angolanos, Portugal é hoje apenas um país onde se fala a mesma língua e onde, talvez, se possa recomeçar. É o país do ‘documento’, da estabilidade e do exílio económico. Portugal é o plano B. Apesar da História.

 

Em 1975, o processo de passagem da administração portuguesa para a administração angolana foi marcado pelo absentismo do Estado português, no acautelar da segurança das populações. Descolonizar não é apenas deixar de dominar, é também garantir que a população, outrora colonizada, tenha voz e possa participar na construção do novo país. Numa atitude Pôncio Pilatos, o governo português de então, ao demitir-se de fazer cumprir o Acordo de Alvor, criou as condições para a trágica guerra civil internacionalizada que se seguiu.

Mas, apesar da História, interpelando o angolano comum, ouve-se dizer com bonomia que “Os portugueses são nossos kambas, sempre foram e hão-de ser”, usando a palavra em quimbundo que quer dizer amigo.

 

“A vitória é certa” era o estribilho das proclamações e canções revolucionárias do tempo da luta independentista e do imediato pós-independência. Hoje, a expressão é dita com sarcasmo e poucos acreditam. Segundo os últimos dados do levantamento feito em Angola para o Afrobarometer, o estudo regular das opiniões públicas em África realizado por uma rede de investigação pan-africana, independente e apartidária (e de que é investigador o referido sociólogo David Boio), só 27% dos angolanos acreditam viver em democracia e apenas 18% estão satisfeitos com o seu funcionamento.

 

No dia-a-dia, há atropelos gritantes, violentos, inaceitáveis, à liberdade de expressão e aos direitos humanos, e o povo voltou a recorrer aos contentores do lixo para enganar a fome. Sempre que há uma manifestação, desesperada e corajosa, a polícia atira a matar e há um sem-número de cidadãos presos e torturados. Mas, ao folhear o Jornal de Angola, encontramos a ficção de um país próspero e feliz. Na primeira página da edição deste histórico 11 de Novembro, alguém obteve de Droupadi Murmu, Presidente da Índia, a declaração de que “a democracia em Angola é das mais vibrantes de África”.

 

Angola, meio-século após a independência, sempre com governos ineficazes, corrupção endémica e pobreza, ainda integra a lista da ONU dos países menos desenvolvidos. Em Fevereiro de 2021, a ONU adiou para 2024 a passagem da graduação de Angola para País de Rendimento Médio. Mas, em Dezembro de 2024, a ONU dizia que continuava a acompanhar a ”saída futura” de Angola do grupo de países menos desenvolvidos. Entretanto, continuam as desigualdades sociais gritantes e a enorme concentração de riqueza num grupo de favoritos com mentalidade rentista, em que Governo, Estado, Partido e Forças Armadas se conluiem na dissipação de todo o potencial produtivo e redistributivo do país. Enquanto esta cumplicidade rapace condicionar a acção política, só é certa a estagnação.

 

Escrevo segundo a anterior grafia.

 

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