Prejudicadas também por serem mães

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Segundo o “Relatório sobre o progresso da igualdade entre mulheres e homens no trabalho, no emprego e na formação profissional 2024”, referente ao quinquénio 2020-2024, elaborado pela CITE (Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego) e disponibilizado na respectiva página, os mais variados empregadores comunicaram que não iriam renovar um contrato de trabalho a termo ou pretendiam despedir mulheres grávidas, puérperas, lactantes, ou pessoas em gozo de licença parental ou cuidadoras. Estas comunicações, obrigatórias pelo Código de Trabalho, somaram mais de duas mil, só em 2024, o pior ano em número de despedimentos, e têm vindo a subir paulatinamente desde 2020 — 1366 em 2021, 1625 em 2022 e 1917 em 2023.

 

Nos cinco anos referidos no relatório, o total de comunicações de não renovação do contrato de trabalho a termo, envolvendo grávidas e outras situações relacionadas, chegou às 8299. Já os despedimentos foram 534 e a cessão do contrato de trabalho em período experimental afectou 544 mulheres. Ou seja, no total das três situações houve pelo menos 9377 trabalhadoras afectadas.

A CITE, contactando as empresas e pondo em causa o motivo da quebra do vínculo laboral, conseguiu recuperar 108 postos de trabalho, por o despedimento ou a não renovação de contrato não cumprir a lei e sob pena de o processo ser enviado para a ACT (Autoridade para as Condições de Trabalho).

O relatório também faz a análise comparativa entre homens e mulheres com outros dados relativos ao trabalho, educação e formação, concluindo, por exemplo, que a disparidade salarial entre mulheres e homens em 2023 ainda permitia dizer que é como se as mulheres tivessem trabalhado 46 dias de graça. Apesar de a disparidade ter vindo a descer, os dados indicam que as mulheres ganham, em média, menos 12,5% do que os homens no salário base e 15,4% menos no ganho total, que inclui suplementos. As maiores diferenças estão nos trabalhadores com mais escolaridade.

Num dos países mais envelhecidos da Europa, com a demografia em queda acentuada, a maternidade custar o emprego a mais de duas mil mulheres num ano, é inconcebível. Que entidades patronais são estas que vêem na maternidade um problema? Por que não optam pela mais elementar decência e seguem a norma de uma empresa sueca, com várias lojas em Portugal, que apoia a maternidade com acréscimo remuneratório e oferta de produtos para o nascituro. O que os impede? Não consta que seja por isso que esta empresa deixa de ter sucesso.

O pior exemplo vem de cima. Lembremo-nos da posição da ministra do Trabalho sobre o aleitamento. É triste, é miserável, é incompreensível. E é sintomático deste asinino quadro mental que entre as prioridades para a revisão da legislação laboral estivesse a preocupação com pretensos excessos de mulheres que prolongam a amamentação.

Para as mulheres portuguesas, a maternidade continua a ser um obstáculo adicional e uma desvantagem no mercado de trabalho, na progressão na carreira e nos salários.

Estamos em 2025?

 

Escrevo segundo a anterior ortografia.

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