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O SNS está exausto

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Portugal respondeu de forma exemplar à pandemia, com as limitações óbvias, mas com um esforço inequívoco de todos os profissionais do setor da saúde, público e privado. Seguiram-se elogios e agradecimentos, mas pouco mudou no final de contas.

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Portugal respondeu de forma exemplar à pandemia, com as limitações óbvias, mas com um esforço inequívoco de todos os profissionais do setor da saúde, público e privado. Seguiram-se elogios e agradecimentos, mas pouco mudou no final de contas.

Nas últimas semanas são vários os títulos nos media sobre a fragilidade e exaustão do SNS. A Ministra da Saúde afirma que todas as greves e denúncias por parte dos profissionais de saúde são oportunistas e se devem à discussão do Orçamento do Estado para 2022, mas se a ministra Marta Temido estivesse atenta, saberia que está errada.

Atingiu-se a imunidade de grupo e com ela vários alívios de restrições. Os serviços de saúde retomaram a atividade normal; os doentes estão mais confortáveis em recorrer aos Serviços de Urgência; muitos doentes crónicos viram o seu estado agravado neste período necessitando de cuidados diferenciados; existe necessidade de seguimento dos doentes recuperados da infeção por Covid-19 e a população em geral está mais preocupada com o seu estado de saúde. Estes fatores contribuem para uma maior afluência ao SNS, superior a uma época de pré-pandemia em que as fragilidades já eram evidentes.

No Hospital de Setúbal assistiu-se à demissão de 87 diretores e coordenadores clínicos, devido à falta de condições e meios humanos para executarem o seu trabalho. Também o Centro Hospitalar de Leiria não escapa a esta avalanche de dificuldades e teve de encerrar a Urgência do Hospital de Leiria no período noturno de dia 12 de Outubro, por falta de profissionais. Admitia-se ainda o reencaminhamento de doentes urgentes para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. As situações de dificuldades do CHL foram reportadas diversas vezes ao Ministério da Saúde mas sempre sem solução.

Os profissionais de saúde estão exaustos e prova disso são as 17 milhões de horas extra realizadas entre janeiro e setembro, que reflete um aumento de 6 milhões em relação ao mesmo período de 2019; a redução do gozo de férias em 50% e as faltas por doença que aumentaram 44% este ano.

Recentemente soube-se que o SNS perde mais de metade dos médicos inscritos na Ordem para o estrangeiro ou para o setor privado. Estima-se que mais de metade dos especialistas em Ginecologia/Obstetrícia, Medicina Geral e Familiar e Radiologia estejam a exercer funções no privado.

A solução é tornar o SNS mais atrativo para médicos, enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica. E a atratividade não se prende apenas com a remuneração, os profissionais procuram mais e melhores equipamentos para providenciar cuidados de saúde diferenciados e com qualidade, que atualmente só encontram no setor privado. Termos os melhores profissionais de saúde em Portugal não serve de muito se os mesmos não têm condições dignas de desempenhar as suas funções.

Estas situações devem ser motor de reflexão para todos, porque um SNS tão doente, exausto, envelhecido e sem financiamento suficiente para se reerguer, não conseguirá cuidar da saúde de nenhum de nós.

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