Quem vê máscaras

Francisco Martins da Silva

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A sociedade portuguesa procura garantir a escola presencial para mais de um milhão de crianças e jovens. Hoje sabe-se pouco mais da covid-19 do que se sabia em Março. Soube-se logo que todo ajuntamento acarreta risco de contágio. Sabe-se agora que novo confinamento geral é incomportável para o país. A polémica solução sueca, mais mascarada e desinfectada, parece ser, doravante, a única possível — a responsabilidade da propagação da doença é dos cidadãos, sendo do interesse de cada um cumprir as regras de segurança sanitária e fazer-se à vida.
Francisco Martins da Silva

Acontece que a pulsão da vida é mais forte que qualquer norma, e não será a máscara e o álcool-gel a retirar irreverência e irrequietude aos nossos alunos.

Algumas turmas foram desdobradas, mas só algumas, pois o acréscimo de apenas 3000 docentes e a limitação das instalações não permitem duplicar o número de turmas. Na maioria das salas, a ocupação é máxima. Nas aulas de Educação Moral e Religiosa e nalgumas ofertas de escola, misturam-se alunos de várias turmas. E há turmas de quarentena com alunos cujos pais são professores que continuam a leccionar.

Os assistentes operacionais passaram a andar numa fona desinfectante pelos edifícios escolares e, também devido aos intervalos desencontrados, em conflito permanente com a circulação errática dos alunos nos corredores e recreios. As normas de limpeza e desinfecção e da movimentação das turmas-bolha em sentidos únicos marcados no pavimento são de tal minúcia e obrigatoriedade que justificariam a incorporação massiva de assistentes operacionais, submetê-los a esforçada recruta e, em cerimónia de parada, arvorá-los em comandos operacionais… Em vez disso, o primeiro-ministro anunciou a contratação de apenas 1500 destes funcionários. A comunicação social limitou-se a referir o sensacional número 1500, abstendo-se de explicar que há 812 agrupamentos, cada um agrupando duas a vinte e oito escolas. A crónica insuficiência do corpo de assistentes operacionais, agravada por inúmeras baixas médicas, e o consequente descontrolo do incumprimento da distância física aconselhada entre alunos e turmas nos recreios será uma grande contribuição para a tão desejada imunidade de grupo. A economia primeiro, logo, solução sueca.

No espaço escolar, da sala de aula ao refeitório e ao recreio, a máscara veio incrementar o flagelo da indisciplina para novo patamar: desde o esquecimento recorrente, recusa ou uso indevido da máscara a um rol infindo de actividades a coberto dela. — Eu?! Como prova que fui eu, se estava toda a gente de máscara? — Os professores vão aprendendo a conhecer os novos alunos só pelos olhos e talvez, finalmente, o cargo de director de turma passe a ser a tempo inteiro.

Nas aulas, a máscara é um suplício. Asfixia no próprio hálito, cefaleias e comunicação defeituosa levarão ao mutismo desistente de quem lecciona. Acabarão as aulas expositivas. Ainda bem, exultarão muitos. Que estarei lá a fazer?, perguntarão outros. Agora é só páuarpóintes, é cada soneca, caçoarão os alunos.

Ah, mas devem privilegiar as aulas no exterior, reduz-se a possibilidade de contágio e os miúdos gostam. Mesmo em qualquer disciplina, não é só em EV ou em EF, exorta o ME. O método peripatético é que é. Aristóteles, se tu sonhasses… Convém esquecer que o Inverno e o mau tempo, por cá, acompanham quase todo o ano lectivo. Também se prevê boa aprendizagem empírica acerca da relação entre correntes de ar e resfriados, devido à prática preventiva do permanente arejamento das salas.

Tudo isto gera receio. Entre professores, há receio. Este receio, consoante a índole, a experiência e a saúde, expressa-se de modo diverso. Há pragmáticos que se dizem mentalizados para, mais dia menos dia, aparecerem positivos, porque quem anda à chuva, molha-se; há quem, recuando um passo, armado de máscara e viseira, declare «nunca me aproximarei dos alunos, destinei uma mesa para eles porem os trabalhos à vez, o aluno levanta-se, põe o trabalho ou o teste ou o que for na mesa, senta-se, e só depois saio da secretária para ir à mesa recolher o que lá estiver, isso é que era bom»; há os que, sendo do “grupo de risco” ou tendo “morbilidades” várias, metem baixa; há ainda quem não compreenda e não se conforme com todos estes constrangimentos, e circule com o nariz fora da máscara ou com ela por baixo do queixo e dê cotoveladas amigáveis em toda a gente.

As medidas que as escolas consigam pôr em prática, para muitos pais, funcionários, e professores serão sempre insuficientes, para outros serão excessivas. Para todos, esta situação sem fim à vista é geradora de paranóia. O maior desafio, talvez, é não deixarmos que a luta contra a covid-19 se transforme em contenda entre nós.

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