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Francisco Martins da Silva

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No auge, Amália da Piedade Rodrigues, a fadista, representava tudo o que a um adolescente se impunha recusar: estética e sentimentos velhos, de velhos. Xailes negros, pose marchante, lamechice desbragada e marialvismo. Foleirice. Na minha adolescência, o fado era isto. Mas Amália nunca foi este fado. Na minha adolescência, era impossível saber fazer essa distinção.
Francisco Martins da Silva

Amália sofreu o efeito perverso de ser tida como cânone e sinédoque do fado. Só que era um novo fado, ao ponto de se dizer com escândalo que o que ela cantava não era fado, pois violava todas as regras. A transgressão maior foi cantar Camões, Mourão Ferreira, O’Neill, Sidónio Muralha, Manuel Alegre, Ary dos Santos, com música do “estrangeiro” Alain Oulman, afinal nascido no Dafundo… Amália sempre foi livre e soube lidar com a inveja, a ignorância, a incompreensão. Nas palavras de Caetano Veloso, Amália pairou acima de Salazar e da Revolução dos Cravos. Sempre fugiu a discutir questões políticas e sociais, nunca se lhe conheceu qualquer envolvimento ideológico (à excepção, talvez, da escolha de poetas de esquerda e do compositor Alain Oulman, também ele de esquerda e opositor ao regime), mas tinha convívio abrangente com pessoas ligadas à política, e ajudava anonimamente presos políticos ou quem quer que, numa aflição, lhe pedisse ajuda. Sempre generosa, mas individualista. Independente. Adoptável por todos os regimes, no dizer de Manuel Alegre.

Em fase de descrédito generalizado e perda de influência cultural, o regime do Estado Novo procura apropriar-se das vanguardas modernistas, instrumentalizando a sua linguagem em temáticas nacionalistas e ruralistas, de pendor sentimental. Nas artes plásticas, os casos mais notórios foram Almada Negreiros, Leopoldo de Almeida e Barata Feyo; na arquitectura, avultam nomes como Pardal Monteiro, Carlos Ramos, Jorge Segurado ou keil do Amaral. É neste Modernismo tutelado pelo Estado que Amália também se enquadra equivocamente, como quando se saiu, em 1953, com o fado Uma Casa Portuguesa, ou quando foi forçada a cantar no aniversário do Sporting, em Agosto de 1958, e no aproveitamento que o salazarismo fez dela para propagandear o regime além fronteiras. Esses equívocos potenciaram o repúdio generalizado no imediato pós-25 de Abril, metendo-a na trilogia salazarista do fado, futebol e Fátima. Só em 1985 regressa aos palcos. O regresso é apoteótico e o público português reconcilia-se com ela. O certame “Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura” promove a reabilitação intelectual do fado, através do “Projecto Fado”, da responsabilidade de Ruben de Carvalho, e confirma a unanimidade que haveria de levar Amália ao Panteão Nacional.

Agora que se celebra o centenário de Amália, o adolescente dos anos 70 já consegue apreciar como ela revolucionou o fado, desde que começou a cantar, em 1939, no Retiro da Severa — a dramatização elegante dos sentimentos, a articulação perfeita da língua, a criteriosa intensidade diferenciada das palavras, a poesia erudita, a conjugação das heranças do árabe e do flamenco, o impor-se aos instrumentistas — distanciando-se de todos os intérpretes coevos. O mundo aplaudiu-a, aplaude-a e celebra-a. Ninguém da sua época se lhe compara, e todos os fadistas de hoje a seguem.

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