Atualmente somos bombardeados com retórica na publicidade, seja em palavras ou em imagens. Os concursos televisivos em que de cinco em cinco minutos se apela ao telefonema, em que se afirma “quantas mais vezes ligar mais hipóteses tem de ganhar” não são mais do que retórica. Mostram-nos o carro ou o dinheiro que podemos ganhar – pathos – falam-nos dos outros vencedores que só ligaram uma vez – logos – e asseguram sempre que tudo é aleatório e segue regras específicas – ethos. Tudo isto é real e verdadeiro, mas a forma como é apresentado ao recetor, com pormenores linguísticos, visuais e até sonoros leva ao convencimento do mesmo de que precisa de ligar, mesmo que não o queira fazer num primeiro momento.
Assisti ao discurso do ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, antes da sua detenção, através da televisão portuguesa. Ao ouvi-lo vi como é um bom exemplo do uso da linguagem no discurso político. Lula da Silva foi condenado a doze anos de prisão por corrupção e branqueamento de capitais, mas naquele dia saiu da praça de S. Bernardo do Campo como herói, reforçando a sua relação com o povo. Elogiou a operação Lava Jato pelo seu trabalho no combate à corrupção porque, segundo o próprio, “rico também tem de ser preso”. Criticou a comunicação social e fez um balanço da sua vida como político e ativista. Quem se concentrar no pathos do seu discurso deixa-se levar pela voz emocionada e pela paixão política aguerrida do antigo presidente. A organização do discurso é brilhante e parece espontânea com toda a confusão que se faz sentir à volta de Lula, mas o tom de voz crescente, o gesticular e a fluidez convencem qualquer um de que Lula é inocente, embora o mesmo nunca o tenha dito explicitamente no seu longo discurso. Ao longo dos últimos anos também em Portugal assistimos a políticos a recorrerem ao uso da retórica para se defenderem de acusações mediáticas, como um ex-primeiro ministro que até foi comentador político no canal de televisão pública portuguesa e que veio também defender Lula aquando da sua prisão.
Obama, Marcelo Rebelo de Sousa e até Trump são outros exemplos de como a retórica tem um forte impacto no público-alvo e na tomada de decisão do mesmo. Nunca nos vamos esquecer de todas as barbaridades, pelo menos aos olhos dos mais moderados, que Trump defendeu durante a sua campanha eleitoral. E conseguiu ganhar. Na minha opinião, a retórica não foi o principal fator, mas com a adaptação do discurso a cada estado, a cada público, a cada problemática regional Trump convenceu o povo de que era dele que precisavam.
Na política a retórica é necessária para fazer passar a mensagem de forma persuasiva e também não se trata de nenhuma “manha”. A argumentação é mais clara quando se recorre a um discurso bem estruturado e que envolve as três dimensões da retórica. Cabe a cada um usá-la para o fim que pretende. Na minha preferência, para o que é factual, para a verdade, para o bem.
O inimigo não é a retórica, mas a forma como o recetor a interpreta. O somatório do logos, do pathos e do ethos tem um poder invisível para o recetor distraído e concentrado apenas na “casca” do interlocutor. A retórica está na base de grande parte das nossas decisões de compra, de voto, de afinidade com uma personalidade, no fundo, está na base das decisões que tomamos ao longo da vida. Para ver mais além há que ser cético, crítico, ponderado e racional mais do que emocional.



0 Comentários