No seu entender, “só há uma maneira de sair daqui através da profissionalização, para que o jornalismo volte a ocupar o primeiro lugar no plano de produção da informação”.
Sem apresentar “nenhuma tese ou teoria acerca do tema”, o grande repórter jornalista do Público durante quase trinta anos, transmitiu algumas ideias e preocupações sobre o papel do jornalismo e dos jornalistas na era da Internet, e ainda sobre a publicação de notícias em período eleitoral, que podem vir a afetar positiva ou negativamente a imagem dos candidatos.
Está reformado desde junho mas continua a ser jornalista. Conhecido pelo seu trabalho na área da investigação, na qual abordou casos como o do Freeport e escândalos na política, José António Cerejo alertou para a situação vivida atualmente pelo setor em Portugal, em que “cada vez é mais necessário, mas cada vez mais é desacreditado”.
“Numa altura em que a informação está por todo o lado e invade o nosso quotidiano por todos os meios, o papel dos jornalistas deveria ser fundamental”, afirmou o jornalista de investigação, alertando para as informações que são publicadas e divulgadas, especialmente nas redes sociais, que “não estão suficientemente consolidadas”.
De acordo com o jornalista, “nós verificamos que há constantemente coisas que circulam nas redes sociais que não sabemos de onde vêm”, e isso na maioria das vezes “não são feitas por profissionais de informação”, mas “as pessoas acreditam naquilo que leem”.
Esta “tendência” do público, segundo o jornalista, de “darem muito mais valor e acreditarem naquilo que é escrito não se sabe por quem, do que aquilo que é escrito no jornal por profissionais”, faz com que este setor seja “atualmente alvo de ataques de toda a espécie, ofensas e críticas, por vezes pessoalmente e ainda como classe”, e isso, é “extremamente grave para a liberdade de expressão”.
Para este jornalista, muitas dessas pessoas que atacam o jornalismo fazem-no por “razões partidárias e mesquinhez, ou mesmo má informação”, acabando por partilhar essas “supostas informações e interpretações de notícias publicadas”, por vezes em sites que “não respeitam as regras mínimas do jornalismo”. “As pessoas favorecem o lixo que circula na Internet como objeto de consumo, desacreditando a imprensa tradicional e esta deixa de ter receitas e forma de pagar convenientemente aos profissionais”, frisou o grande repórter do Público, indicando que isso provoca o encerramento de algumas áreas fundamentais como a revisão dos textos.
Nesse sentido, reforçou mais uma vez o papel dos jornalistas, que cada vez mais são “necessários neste tempo para credibilizarem a informação”, de modo a que o público possa ter referências e informação credível.
O facto de o público “não comprar, nem consumir a informação profissional”, faz com que as empresas vivam confrontadas com situações de insustentabilidade financeira total, levando a que estas “não consigam pagar os profissionais de maneira decente”, entrando assim “num círculo vicioso”.
Ainda assim o jornalista considera que “só há uma maneira de sair daqui através da profissionalização, para que o jornalismo volte a ocupar o primeiro lugar no plano de produção da informação”.
Igualmente esclareceu que a “ideia de que qualquer pessoa pode ser jornalista é um mito. O jornalismo profissional é cada vez mais necessário e só assim chegamos mais próximo da verdade”.
Contudo, também referiu que os meios de comunicação tradicionais feitos por jornalistas podem conter erros, pois o “facto de as coisas estarem escritas, nunca foi garantia que fosse verdade”.
Relativamente à “controvérsia” que ocorre de quatro em quatro anos sobre a legitimidade de publicar notícias em certas alturas, como as autárquicas, o jornalista explicou que “nada justifica que os jornalistas metam na gaveta o resultado do seu trabalho, por via dos calendários eleitorais, mas também entendo que nada justifica, antes pelo contrário, aquilo que representa uma grave violação dos deveres de isenção dos jornalistas guardarem tais assuntos propositadamente para as épocas eleitorais”. Aliás reforçou, que isso é “inaceitável, e no meu entender a notícia existe quando os factos estão estabelecidos naquele momento”, cabendo ao jornalista não deixar instrumentalizar-se por ninguém e assegurar a independência do trabalho quanto à publicação das notícias no momento em que ocorrem.



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