“Basta de passividade, juntemo-nos às manifestações que vão acontecer por todo país”, foi o apelo lançado na rede social Facebook por Gina Filipe e Ana Raposeira, organizadoras do evento no passado sábado na praça da Fruta, onde estiveram algumas dezenas de pessoas.
Com o mote “Juntos por um país mais consciente”, a manifestação pretendeu mudar “as atitudes muito negligentes e potenciadoras de tragédias” como as que se assistiram em Pedrógão Grande e mais recentemente noutros concelhos, não esquecendo que também a região das Caldas da Rainha esteve sob chamas.
“Passei no quartel dos bombeiros voluntários das Caldas da Rainha para entender como poderíamos ajudar de uma forma concreta, para que esta manifestação/encontro fosse produtiva. Depois da conversa com o sr. comandante Nelson Cruz percebi que a maior dificuldade que encontra é passar a mensagem de que cada um tem de tratar dos seus terrenos. Está instalada a falta de responsabilidade civil e corrigir isto é fundamental”, relatou Gina Filipe.
Segundo descreveu, foram desenvolvidas “várias ações de sensibilização em todas as juntas de freguesia, entre 2014 e 2016, e poucas pessoas apareceram”.
“São vários os fatores que levam ao desleixo dos terrenos, entre outros a falta de recursos monetários, a falta de consciência e o abandono de terrenos. Parece que continuamos a ser movidos a coimas, porque a maioria das pessoas que é abordada pelas autoridades para limpar os seus terrenos só o faz depois de ser penalizada. Será que é possível corrigir isto? No domingo dos incêndios, na nossa zona foram encontradas pessoas a fazerem queimadas e a manusear rebarbadoras. Não estou a minimizar todos os outros fatores, os desgovernos, o terrorismo, os interesses de grupos e o aquecimento global. Mas a consciência e responsabilidade individual é uma vertente relevante”, manifestou Gina Filipe, dando assim o mote à manifestação: “Demonstrar o interesse em arranjar soluções para a proteção do património florestal”, porque “cabe a cada um de nós ser consciente e responsável e praticar a mudança”.
Gina Filipe não foi afetada diretamente pelos incêndios, mas a sua irmã que vive em Melgaço ficou rodeada pelas chamas e “foi uma noite aflitiva, sem conseguir contatar com ela”.
Já Ana Raposeira viu arder um terreno com um moinho na Estrada Atlântica, na Serra do Bouro. “Amigas ligaram-me a dizer que estava a arder para aqueles lados e então eu fui a correr para lá. Comecei a molhar as árvores com baldes de água e a ligar para os bombeiros a pedir para virem. Estivemos desde as dez da noite até às cinco da manhã a lutar contra o fogo. Os vizinhos têm os terrenos baldios e sem ser cuidados e ardeu tudo à volta”, recordou.
“Há muitas mensagens que podemos deixar aqui, mas principalmente cada um de nós deve perceber que é responsável por várias coisas, não só pelos terrenos que tem mas também pelo que faz a nível ecológico e o que faz ao ambiente. E também somos responsáveis pelo Estado e temos de nos fazer ouvir, e não ficar cada um sentado em sua casa a ver televisão”, expressou Ana Raposeira.
Rui Machado e Eliana Soukiazes vieram juntos à manifestação e ostentavam cartazes com dizeres como “humanismo” e “civismo”, valores que acham que “estão a faltar hoje em dia na sociedade”, pelo que “depende de nós, população, fazer alguma coisa para causar mudança e ação por parte de quem toma as decisões em Portugal”. “Nós elegemos os governantes e eles têm de saber a nossa opinião perante os incêndios”, declarou Rui Machado.
“Nós nem somos das Caldas da Rainha. Somos de Coimbra. Viemos cá este fim-de-semana, mas achámos que podíamos estar aqui presentes porque o povo também tem de ter uma palavra a dizer em relação a tudo isto e tem de mostrar o que sente em relação aos últimos acontecimentos”, manifestou Eliana Soukiazes.
Pedro Costa apresentava um cartaz com a mensagem “Consciência e atitude”. “Vivi uma situação complicada na noite de domingo. Fiquei preso na EN109, na zona de Vagos, com pessoas em aflição e casas a arder. Isso sensibilizou-me para o facto das coisas não estarem bem e alguma coisa tem de mudar. Sou das Caldas mas vim para esta manifestação sem conhecer ninguém. Acho que o povo tem de se unir e lutar por esta causa”, contou.
Joana Santos relatou que em final de julho viveu o drama de um incêndio em A-dos-Negros, em Óbidos. “Tivemos a sorte de sermos logo socorridos pelos bombeiros mas foi por pouco que não passou perto de casas. Infelizmente há muitos terrenos que não são cuidados”, comentou.
“Foi muito interessante conhecer e trocar ideias com pessoas conscientes e com capacidade de ação. Assim conseguimos praticar, cada um de nós, e em união, a mudança que queremos ver no mundo. Esperamos que este evento nos incentive a continuar na nossa evolução como seres humanos mais conscientes em relação à nossa coexistência neste planeta”, concluiu Gina Filipe.






0 Comentários