Esta nova ordem internacional viria a ser aprofundada em 1815 no Congresso de Viena e em 1919 no Congresso de Versalhes. De todo este longo processo civilizacional da Idade Moderna, a França emergiu e consolidou-se como a potência dominante do Ocidente. Desde a faustosa corte do Rei-Sol, em Versalhes, que a França passa a afirma-se como o farol cultural do mundo. A moda, a arte, a ciência, a economia e a política que de lá emanavam eram o paradigma a seguir. Até o nosso D. João V quis imitar Versalhes em Mafra.
Esta hegemonia começou a esbater-se a partir da Primeira Guerra Mundial e esfumou-se definitivamente com a Segunda. A intelectualidade europeia, os seus cientistas e criativos, fartou-se da Europa, dos seus estúpidos conflitos, das perseguições e das péssimas condições de vida, e refugiou-se sobretudo nos Estados Unidos, que a recebeu de braços abertos, dando-lhe condições para realizar todo o seu potencial. Os Estados Unidos lucraram muito, cultural e economicamente, com a loucura da Europa durante as duas guerras mundiais. E o farol da civilização ocidental desloca-se, então, de Paris para Nova Iorque. E assim ficou até hoje, apesar do macartismo, apesar de Nixon, apesar Reagan, apesar de Bush, apesar de Trump.
Ainda nos anos setenta do século XX havia um cinema em Lisboa, o Star, na Avenida Guerra Junqueiro, que só exibia cinema francês, e de lá vínhamos fascinados com os filmes de Godard, Truffaut, Resnais, Besson, Lelouche, etc. Os namorados, num arroubo de erudição, ainda declaravam um intenso Je t’aime. Hoje, quando dizem I love you, soa apenas banal. Nessa época, nas escolas portuguesas, o Francês ainda era a primeira língua estrangeira. Hoje, os alunos detestam as aulas de Francês e só não as evitam se não puderem, porque a língua e a cultura francesas não lhes diz nada. E para os mais velhos, a França já é só uma recordação. Cinemas como o Star desapareceram e seriam impensáveis hoje. A França já não faz as modas e passou definitivamente de moda. A França deixou de ser essa extraordinária voz dirigida a todos os povos do mundo, que o candidato conservador François Fillon, derrotado pesadamente nas primárias, ainda acha que é.
Hoje a França só é notícia pelo impensável sucesso dos herdeiros ideológicos do execrável governo fantoche de Vichy, do Marechal Pétain, colaboracionista com o nazismo e anti-semita. A xenofobia e o racismo, condensados nesse conceito francês que é o chauvinismo (o corajoso Nicolas Chauvin nunca teve nenhuma culpa disso, claro), são hoje continuados por um quarto dos eleitores franceses, sob a batuta fascista, anti-Europa e anti-globalização de Marine Le Pen. Os outros três quartos dividem-se entre a abstenção e o apoio relutante a Emmanuel Macron.
Le Pen não oferece dúvidas. Proteccionista, amiga de Putin e de Trump, inimiga de Merkel e fazendo declarações demagógicas contra o grande capital e os ricos, verdadeiramente não engana ninguém. Mas a tribo que a apoia é imune a todo este potencial de catástrofe, e votou nela por se rever desde sempre no seu discurso de extrema-direita.
O ambíguo Macron é apenas opositor a Le Pen. Defende genericamente a mundialização e a abertura da França ao mundo e pisca um olho hipócrita aos imigrantes e aos refugiados. Mas no passado recente chegou à ribalta política pela mão de François Hollande, tendo sido seu ministro da Economia, e criou a chamada Lei Macron que facilitou despedimentos colectivos e aventuras bancárias que favoreceram os mesmos de sempre. Também não convence ninguém. Quem votou nele fê-lo com medo de Le Pen.
O resultado destas eleições francesas não é motivo de festa. Desde logo porque Macron é o tipo de político que contribui para o pântano social onde medram Le Pens e Trumps. Em segundo lugar, porque a extrema-direita continuará influente e actuante, e a vitória pífia deste mal menor chamado Macron poderá significar um regresso à instabilidade da IV República, que entrou em colapso depois de mudar vinte e uma vezes de governo em doze anos. Um Presidente francês precisa sempre de uma maioria parlamentar para poder governar. Um mais que previsível resultado eleitoral semelhante nas próximas legislativas permitirá à extrema-direita minar as instituições e inviabilizar a prazo o governo de Macron.
Noutro tempo diríamos, são franceses, que se entendam. Hoje encontramo-nos amarrados a uma União Europeia cujas vicissitudes nos afectam gravemente. Dependemos de uma União Europeia forte, convicta, coesa. A França já não dita as modas mas influirá sempre decisivamente no futuro da Europa. Um Presidente francês que não é carne nem é peixe dará espaço de manobra ao grupo crescente dos que defendem a desagregação da União Europeia.
E, no entanto, se Macron prevalecer e conseguir restabelecer o eixo franco-alemão e reforçar a Europa, a França pode reinventar-se como farol político demonstrando que a direita e a esquerda já não fazem sentido.



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