AIRO celebrou 35 anos de atividade num jantar de homenagem a António Guterres

Mariana Martinho

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A Associação Empresarial da Região Oeste (AIRO) comemorou os 35 anos, na passada sexta-feira, com um jantar de comemoração e de homenagem a António Guterres. Apesar do eleito secretário-geral da ONU não marcar presença na comemoração, a iniciativa contou uma sala cheia, com cerca de uma centena de convidados, que mostrou-se bastante atenta às temáticas abordadas pelos oradores Rosário Farmhouse, antiga Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, e Pedro Cordeiro, jornalista de política internacional.
Painel de oradores no jantar comemorativo dos 35 anos da AIRO

Após o jantar de comemoração, seguiu-se a conversa com os oradores, que abordaram a temática dos refugiados e prestaram homenagem a António Guterres.

“A ideia de homenagear António Guterres surgiu ainda antes de sabermos da nomeação deste para secretário-geral da ONU”, disse Ana Maria Pacheco, presidente da AIRO, adiantando que “mesmo que não tivesse sido o escolhido a homenagem seria feita de qualquer modo”. Perante a presença da irmã de António Guterres, a quem foi entregue uma lembrança, a responsável sublinhou que a iniciativa foi “uma maneira de juntar a comemoração à homenagem que queríamos prestar ao nosso compatriota, que vai ser um refúgio de equilíbrio no meio deste mundo”.

Rosário Farmhouse começou por afirmar que “aprender a viver juntos é um dos maiores desafios dos nossos tempos”, pois maioria das vezes “estranhamos os que são diferentes”.

“Vemos o mundo só do nosso lado, com representações e estereótipos”, explicou, adiantando que “temos a imensa tendência de catalogar os grupos, as pessoas e a pôr etiquetas através de preconceitos”.

Para Rosário Farmhouse, “o preconceito está associado a uma valorização e comparação negativa”. “Quem diz que não tem preconceitos está a mentir, todos nós temos preconceitos”, sustentou.

Sobre o homenageado da noite, que nos últimos dez anos da vida foi responsável pelo cargo de alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Rosário Farmhouse esclareceu que “existiam na altura 36 milhões de refugiados e neste momento já existe o dobro”.

A responsável também sublinhou que o nono secretário-geral das Nações Unidas “tem sido uma das pessoas, que vem chamando a atenção para esta temática tão silenciosa, que agora bateu à porta da Europa”.

Na opinião da convidada, o que falha é a capacidade de resposta dos europeus, que “tem sido muito lenta”, embora Portugal seja o segundo país membro da comunidade europeia “que tem recebido mais refugiados”. Apesar de “não oferecer grandes condições de vida e dos processos burocráticos serem horríveis”, tem uma população mais aberta e solidária que a maioria dos países europeus.

Para Rosário Farmhouse, os refugiados passam por vários desafios de integração, como a viagem, a língua, a cultura, a religião, o emprego, os processos burocráticos, o alojamento, a interação social, o trabalho, a amizade e a solidariedade.

Atualmente, segundo Rosário Farmhouse, vivemos numa crise de valores e afetos, onde existe “ um respeito pelo desconhecido mas não há interação, portanto, vamos construindo guetos à volta disso”. Por isso, enalteceu que o grande desafio passa pelo “diálogo cultural e pela curiosidade”, de modo a “não generalizar”.

António Guterres, “uma escolha com base no mérito”

O especialista em jornalismo do Expresso, Pedro Cordeiro também participou na tertúlia, e começou por afirmar que “a humanidade nunca teve tão bem como hoje, o que acontece é que esse bem está mal distribuído”, provocando desigualdades crescentes e uma série de fenómenos mundiais, que “ fizeram com que tudo de repente parecesse difícil de organizar”. Além disso, referiu que essa “vontade de rejeição do sistema organizado tem vindo a crescer a favor de opções extremistas”, exemplificando com acontecimentos históricos.

Para Pedro Cordeiro é essencial perceber como é que “os indivíduos de caráter indesejável são a opção tomada por tantos cidadãos e perceber o que falhou no modelo”, numa alusão às eleições na América. Também esclareceu que “a revolução digital e tecnológica personaliza tudo de tal forma, até ao ponto de tornar a globalização numa solidão cada vez maior”.

Em relação aos refugiados, explicou que “vamos de ter de viver com este fenómeno e encontrar formas inteligentes de o integrar na vida dos nossos países, pois é um fluxo pela sobrevivência que não vai acabar”.

O jornalista também elogiou a eleição de António Guterres, salientando que “a forma como decorreu este processo de seleção é um exemplo do que deve ser a quebra de certos podres, que levam as pessoas a deixar de acreditar no modelo que temos estado a viver”. “Foi uma escolha para um cargo internacional com base no mérito, que ultrapassou questões de rotativismos combinados e feita contra os poderes grandes”, afirmou Pedro Cordeiro.

Mariana Martinho

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