Crónica de mais um licenciado

André Miguel Serrenho

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Curso terminado!... A vida é feita por etapas, e mais uma está encerrada. É tempo de encarar novos objetivos e prosseguir a caminhada na busca daquilo que nunca sabemos ao certo o que é, mas pretendemos constantemente alcançar. É isso que nos faz mover, mesmo quando julgamos estar bem no ponto em que estamos. É esse lugar fictício, estatuto misterioso ou crença que nos faz tomar decisões. Umas certas, outras erradas, mas todas elas nos fazem sair do ponto em que estávamos anteriormente, e avançar.

Mas à parte dos sentimentos nostálgicos e de memórias coloridas dos tempos de faculdade, aqui fica a minha crítica, não a tudo o que o ensino superior tem de mal, mas da minha reflexão retrospetiva que fiz, depois de ter concluído o curso.

Eu não fui, de longe, o melhor exemplo de aluno aplicado e motivado para seguir uma grande caminhada académica ou profissional. Tenho ambições pequenas nesse campo, e vivo bem com isso. Mas mesmo assim, sinto-me no direito de criticar o sistema de graduação numa formação dita “superior”.

Quando se fala em formação superior, pelo menos a mim, transmite-se a ideia da presença de uma bagagem curricular e conhecimento da área extremamente especializada. E agora que tenho uma “formação superior”, onde está o meu domínio sobre a área que estudei e conhecimento especializado sobre as matérias inerentes? Muitos me responderiam “se quiseres tirar uma especialização segues para mestrado”, ao qual eu respondo, para que serve então uma licenciatura? E se eu não quiser seguir mestrado, é suposto não me valer de nada ter uma licenciatura? E agora só me ocorrem três palavras “Processo de Bolonha”. O que é que vamos fazer aos estudantes do ensino superior? Vamos deixá-los ter o título de Licenciado em apenas três anos, e para termos menos chatices com programas curriculares e horários a pagar a professores para darem aulas, no inicio do ano mandamos os professores dizerem que “é suposto haver trabalho de casa e estudo autónomo por parte dos alunos para a licenciatura ficar completa”. E em cinco anos são Mestres!

As consequências disso são: as licenciaturas transformam-se numa banalidade, que em pouco tempo equivalerá ao anterior grau de secundário; e haverão por aí mestres a dar com pau. Resultado final? Mestres em áreas extremamente específicas e especializadas, a trabalhar em call centers e supermercados. Todos esses trabalhos são honestos e necessários, mas será de facto necessário facilitar a formação académica de um individuo para esse desfecho final?

Facilita-se a atribuição de graus, entregam-se diplomas “ao desbarato”. Ok, tudo muito bonito: “Estamos a ficar com uma sociedade mais instruída!” Poderão dizer. Mas não passa tudo de uma ilusão. Possuir cursos superiores, devia ser mais exigente, mais extensivo, mais especializado. Três anos de Licenciatura não chegam para nada! Trabalho de campo, estágios durante a frequência do curso, inserção no mercado de trabalho, deviam ser coisas tidas muito mais em conta durante o período dessa frequência. Mas só se olha para dois tipos de números: o dos € investidos; e o dos licenciados no final; isto quando a educação devia ser a maior fatia de investimento por parte de um estado a par da saúde.

Posso estar a fazer uma má análise ou levantar muitas opiniões contrárias, mas é isto que eu sinto, agora que acabei um curso, e não tenho qualquer confiança nem bagagem para procurar emprego na área. Não me sinto instruído o suficiente, nem especializado em assunto algum. A ter cadeiras de apenas três meses e meio, fazer frequências e passar, não retive conhecimento, nem experiência, nem domínio… nada. E tenho a certeza de que não sou o único, porque já tive oportunidade de falar sobre isso com amigos, inclusivamente de outras áreas e universidades.

Afinal de contas, de que me vale ter um curso superior? (Ainda assim, não abdicava dele. Pode-me não ter enriquecido intelectualmente, pelo menos ao nível que poderia ser esperado, mas enriqueceu-me pessoalmente, e já tenha saudades da Universidade…)

André Miguel Serrenho

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